sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Hoje, Comendo Sushi


Hoje, comendo sushi, consegui deixar minha camisa completamente suja de Shoyu. Pode parecer uma banalidade, e de fato é, mas quando se aplica a minha pessoa, talvez deixe de ser. Ouvi uma pergunta que merece uma resposta mais elaborada e vou aproveitar  o espaço para responder. A pergunta: "Isso vem com o pacote do TDHA"?

Antes de responder no entanto é preciso entender a pessoa que fui e a pessoa que sou.  Desde criança, nunca tive muitos amigos, na verdade, quase nenhuma de minhas relações podia ser assim classificada. Meus amigos eram os livros, que me mostravam o mundo e moldavam minhas idéias e ideais descortinando assuntos até então escusos a mim.  E não tinha amigos, não por culpa das outras crianças, mas porque não é fácil conviver com quem derruba quase tudo que pega, que quebra quase tudo que toca, que estragava as brincadeiras das outras crianças, que não sabia se colocar, enfim. Quando vi que o convívio não daria certo, me afastei e me tornei amigo dos personagens dos clássicos que lia e ainda leio, viajei com eles para um sem fim de lugares e ainda hoje, quando a vida se torna um fardo insuportável me transporto para lugares que amo sem nunca ter pisado a planta dos meus pés e "converso" com personagens que se não me respondem, ao menos me confortam com seu silêncio.

Na fase da adolescência, me tornei um leitor ainda mais ávido. E desenvolvi uma compulsão sexual que obviamente servia como escape para uma série de pequenas mágoas e frustrações que só consegui elaborar e consequentemente lidar depois de adulto. Não foi fácil para mim conviver com o estigma de ser "o cara muito inteligente porém insuportável". Hoje é claro, dou um grande foda-se para tudo isso, simplesmente não me importa nada disso porque sei de minha condição e sei que sou uma boa pessoa, que tenho um bom coração, que busco ser do bem e sei  que minha vida não pode ser pautada pela percepção que as pessoas tem de mim e não obstante o fato der sim, eu tenho que tentar agradar na medida do possível as pessoas a minha volta, minha integridade, meus pensamentos não podem ser maculados pela ideia que melhor é ser amigo de todos ainda que para isso tenha que me policiar o tempo todo para ser "normal"

E ai uma das questões mais torturantes para quem se põe a pensar além do obvio: O ´que é afinal esse conceito tão difundido e tão pouco explicado que trata sobre normalidade, sobre ser normal?  Que regras são essas, sejam elas sociais, ou pessoais que tratam sobre como se portar a mesa, no trabalho, na cama, em uma roda de amigos, nos estádios de futebol, enfim, que amontoados de pequenas e grandes travas nos guiam o tempo todo para que sejamos considerados pessoas aceitáveis socialmente? Exemplifico: Quando eu derramo Shoyu em toda a minha camisa uma vez, ok, é um acidente. Mas se eu derrubo no outro dia também e a noite, eu derrubo o molho do macarrão e no outro dia eu derrubo a torrada no chão, automaticamente virei um "desastrado" e ai, esqueça, é isso que vai me marcar. Se eu for um  astrofísico e descobrir 30 exoplanetas em 15 dias serei um astrofísico desastrado, não um gênio. Ou no máximo, um gênio desastrado.

E essa regra se aplica a tudo e todos. Se não estamos dentro do que a sociedade a nossa volta convenciona como certo e aceitável, somos pessoas tortas e é de bom tom se manter distante de nós. Por outro lado se ainda sim temos habilidades  que se sobressaem as pessoas ditas normais, se conseguimos desempenhar determinadas tarefas com excelência, isso nos torna não alguém memorável, mas um chato desastrado a quem todos aguentam porque precisam de suas habilidades e basta um simples deslize, um tropeço qualquer para que sejamos substituídos por  um medíocre qualquer que se enquadra no que a sociedade convenciona como normal.

A normalidade é para mim, com meu TDHA  e minha personalidade pouco afeita ao convívio com qualquer espécie de ser humano, uma tortura, uma angustia sem fim, um motivo de choro secreto em qualquer banheiro que eu possa usar, uma necessidade constante de aliviar a tensão que deriva dessa vida presa as convenções que não quero seguir. Amo por exemplo usar terno e gravata, acho que fico elegante, feio, mas elegante, mas odeio usar no dia a dia pela obrigação. Uso, pois tenho 43 anos, não sou mais a criança  de 10 anos que destruiu um rádio a marteladas porque o Eli Correia parou de tocar minha música favorita bem no meio, não posso mais martelar quem me chateia, talvez eu fosse mais feliz se pudesse, menos angustiado, menos preso em mim mesmo.

Hoje comendo sushi, me emporcalhei como a criança de 10 anos que eu era se emporcalhava quase todo dia. Tive vontade de gargalhar de felicidade, mas me contive. Isso é quem eu sou, o que me define, uma pessoa brilhante (gritem que sou arrogante, foda-se!) que se lambuza ao comer, que comeria com a mão se pudesse, que fecha uma venda de terno ou de bermuda porque sou bom para caralho, que fala palavrão, que tem vontade muitas vezes de ir a uma clareira em uma mata ou onde quer que seja e gritar até estourar os pulmões, que lê, que absorve o que lê, que sonha acordado, que busca ser  feliz, mas não tem saco pra ser feliz como as pessoas querem que eu seja.

Sim, esta no "pacote TDHA" me sujar enquanto eu como e continuar a comer como se nada tivesse acontecido. Isso não faz de mim alguém anormal, apenas com uma normalidade diferente da maioria das pessoas. Eu amo a minha normalidade e respeito a das demais pessoas, mas infelizmente tenho que viver a  normalidade que as pessoas querem que eu viva, tenho que me enquadrar. Me enquadrar me mata um pouco dia a dia. Digo amém a tanta gente a quem gostaria de confrontar e embora isso me chateie, estou aprendendo a rir da situação e em grande medida isso me alivia.

Me sujar, gritar, berrar, discordar, tudo isso esta dentro da minha normalidade e talvez ela não sirva para a maioria da humanidade. Fazer o que? Tenho pequenos prazeres ainda como me sujar todo comendo sushi em um restaurante cheio. A vida tem que ter algumas compensações não é mesmo? Não quero nem saber se me acham maluco ou  simplesmente porcalhão. Tanto faz pois um ou outro estão fora do escopo de normalidade definido pela sociedade, então que eu seja ambos, ao menos serei hostilizado em grande estilo.

As poucas pessoas que gostam de mim tem o meu melhor pois são pessoas que se dispuseram a ver além da superfície, mergulhar em minhas águas revoltas, e perceber que existe uma calmaria abaixo das primeiras camadas, uma zona habitável onde eu posso ser eu mesmo e amar sem medidas que no fundo no fundo é tudo o que importa. Meu "pacote TDHA" é extenso, mas meu amor, ainda maior.

É isso

Ouvindo:Rita Lee
Postar um comentário