quinta-feira, 11 de maio de 2017

rua pedro fioretti, osasco, são paulo



semana passada, ao levar graziela ao médico,  fiz o percurso da rua acima a pé. andei praticamente por toda sua extensão, pois o médico era em uma ponta e estacionei na outra. claro que deixei graziela no destino antes, ou ela morreria ao andar tudo o que andei...

neste percurso, vi cinco tipos. sou muito observador quando me interessa, e esses cinco tipos em uma caminhada de mais ou menos 1km me chamaram demais a atenção. a vida em uma grande cidade, quando observada com olhos um pouco mais atentos traz surpresas ora engraçadas, ora tristes ora impressionantes. só não te deixa indiferente, a menos que a indiferença seja uma escolha, uma forma de viver a vida.

de qualquer forma estes foram os tipos observados e aqui vão algumas observações esparsas que obviamente não pretendem traçar perfil ou coisa do tipo, são apenas pensamentos que uma mente a tormentada não consegue conter e nem manter encapsulados.

1. o maconheiro desencanado
logo nos primeiros metros de caminhada topei com um maconheiro absolutamente desencanado. daqueles que não escondem o back, muito pelo contrário, ostentam um certo orgulho ao empunha-lo fumando-o quase como que mandando um foda-se as instituições estabelecidas. claro que para mim, que cresci em uma muito diferente em vários aspectos, algo assim choca, mas quer saber? choques são importantes para abrir nossos olhos seja para o que for, ainda que seja para fazer ver que drogas são uma realidade inexorável em nossa sociedade e em algum momento, por mais atrasada que seja a sociedade brasileira, teremos que falar seriamente sobre este assunto. o maconheiro me põs a pensar no mundo em que meus netos, (se algum eu tiver) viverão.

2. o tipico morador de rua com problemas mentais.
deve ser daqueles que comem bosta eventualmente. roupas imundas, trapos na verdade. uma sujeira que faria o cascão corar de vergonha, um sorriso esquisito que rapidamente é trocado por uma expressão agressiva. neste momento o rapaz em questão, até que novo, não mais que 35 anos com certeza estava fuçando o lixo em busca de alimento. não me penalizei dele, mas de mim mesmo. sou muito bom para escrever, mas completamente incompetente para agir. passei reto quase tapando o nariz pra me livrar do odor que dele vinha. fui o típico cretino enquanto ele nem sequer tomou conhecimento de mina existência. mas teria ele conhecimento de sua própria existência?

3. uma mulher, três crianças e a luta para mante-las ao seu lado
pobre mulher. ainda jovem, muito jovem. dois meninos gêmeos e uma menina que deve ter vindo no susto logo depois. coitada!!! como todo ser humano só tinha dois braços, mas tinha que agir como um polvo para manter todas as crianças sobre sua guarda. tudo distraia a tenção delas. carros, cachorros, buzinas, sorvete, o que fosse enfim. a pobre ainda tentava dar água a um deles quando o outro pegou a garrafa e a derrubou no chão. o prejudicado chutou a perna do que derrubou e curiosamente a menina começou a chorar. deve ser daquelas pessoinhas pacifistas que odeiam conflitos. mas adoram bagunça... pobre mãe, seguiu seu caminho. mas sei que existe uma pontinha de orgulho por ter três rebentos tão belos. algo tem que conforta-la né?

4.um casal de velhinhos.
era lindo como ele a amparava. era sublime o seu braço em volta dos ombros dela, seu cuidado, seu olhar terno , sua preocupação e seu passo vigoroso porém lento porque ela jpá usava uma bengalinha e andava devagar. era uma conexão evidente, muda em palavras mas gritante em gestos e enquanto os fitava e principalmente quando passei por eles, o mundo ficou mais bonito. depois voltou ao cinza habitual.

5. alguém como eu.
uma pessoa andando rápido, claramente escrava do tempo, passos largos, decididos embora passassem a impressão que estavam meio perdidos  tinha a mesma gravata azul que eu tinha e isso me chamou a atenção. alguém que não chama a atenção, ordinário assim como eu sou. ao vê-lo e nele automaticamente me ver, desejei ser o rapaz de 30 e poucos anos que revirava o lixo. é uma vida de não perceber-se e por este motivo, menos angustiar-se. mas continuei a caminhada e cheguei ao hospital. e graças a Deus, graziela vem melhorando.

é isso.

ouvindo: Leonardo Gonçalves
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