sexta-feira, 30 de março de 2018

Ainda Sobre "A Forma Da Água"



Alguns filmes ficam "falando comigo" muito, muito tempo depois de assistidos. Deitado em minha cama durante a madrugada eu acordo pensando sei lá porque em determinados filmes. "A Forma Da Água" é um desses filmes. Fala comigo ainda hoje, mais de um mês após eu ter assistido. Por que? Não sei. Mas tem falado tanto que preciso compartilhar.

O Mais tocante em A Forma... é que ele não se atém a contar uma história de amor pura e simples. Não é como se fosse um conto de fadas onde o ser encontrado nas águas do Amazonas fosse um sapão horrível e com um beijo da faxineira muda virasse uma outra coisa, palatável, visualmente interessante e de fácil convívio social. Nada disso.

Ela se interessa por ele não pela sua excêntrica aparência ou porque ninguém mais lhe daria bola. O que existe é um afeto tão puro e tão real que chega a ser palpável. Elisa, a personagem,  esta cercada de pessoas que no ambiente em que vivem são pouco mais que paisagem e paisagem que ninguém nota. Sabe quando você vê um Ipê Roxo na época da florada? Impossível não notar né? Mas um Antúrio, por exemplo, quem dá bola? Os amigos dela são pouco mais que isso. Um homossexual com um pé no alcoolismo e fracassado no trabalho e uma negra faxineira. Ela mesmo, uma muda meio feiosa é praticamente invisível onde quer que vá. Ainda sim, Elisa extrai das pessoas o que de melhor elas podem oferecer e com aquele ser aquático, não fez diferente. Enamora-se de quem ele é e não de como ele é.

Tão raro isso hoje em dia. Gostar de alguém pelo que a pessoa é e não pelo que ela pode oferecer? Quem hoje? E mais triste, quem hoje reconhece como pessoa e não como um ser qualquer pessoas que nada tem a oferecer? Tudo o que aquela forma aquática tinha a oferecer, a quem olhasse sem a devida atenção, era um caminhão de problemas por ser como era e quem era. Elisa tomou os problemas para si e sem pestanejar, pois tratava-se de alguém a quem ela havia entregue todo o seu afeto, lutou para estar ao seu lado, para viver algo pleno, ainda que claramente caótico e efêmero. 

Muito mais que falar de monstros ou seres mitológicos, A Forma... fala de amor. Não esse amor pasteurizado construído no ter, no obter.Não, nada disso. A Forma... é um filme que fala sobre a pureza e de como ela pode ser encontrada nos lugares mais esquisitos, inóspitos, de como cada recôndito de nossa alma pode ser preenchido por este amor tão especial e raro.

Elisa me ensinou sobre o amor como conduta de vida, não como um sentimento guardado em algum compartimento do coração que só se usa vez em nunca. Elisa é amor o tempo todo e só agora entendo a cena de abertura de A Forma... quando ela se masturba (ops spoiler, mas se você não foi assistir ainda, azar o seu, até do grande circuito já saiu) é uma das mais sensíveis que já assisti nos últimos tempos e remete não a pornografia, mas a um senso estético belo e apurado. Claro, se você não tiver  saído da Quinta Série, vai ficar excitado (poor kid) ma se for um adulto maduro, saberá contempla-la com a beleza que ela tem.

A Forma... é um daqueles filmes para ser visto e revisto, muitas e muitas vezes. Infinitas vezes e a cada vez que é revisto, novas nuances, novas camadas, aparecem  e comovem. E de  novo, a trilha sonora é um capítulo  a parte, de uma felicidade absoluta.

É isso

Ouvindo: Aerosmith



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