sexta-feira, 1 de setembro de 2017

ejaculações ambulantes



o que pensa um homem que ejacula em uma mulher em um ônibus em movimento e com mais passageiros? o que pensa um homem que estupra uma mulher em um lugar ermo e aproveitando-se de alguém absolutamente indefeso satisfaz seus extintos mais baixos sem pensar duas vezes? o que pensa um juiz que solta o homem que ejaculou na mulher expondo-a a vergonha absoluta com um parecer sem pé e nem cabeça? bom, não sei o que pensam os dois primeiros citados no parágrafo, mas tenho certeza que o juiz pensa de forma muito parecida, senão igual a eles.

o que pensam, no entanto, as pessoas que se aproveitam de tamanha perfídia e tristeza para fazer proselitismo? pessoas que clamam por justiça mas ficam inertes em seus sofás assistindo netflix e com o as pessoas na sala de jantar estão mais ocupada em nascer e morrer? como ousam levantar a voz de forma tão contundente, perguntando que país é este, que justiça cega é esta que temos, para cinco minutos depois se ocuparem de seus afazeres mais comezinhos esquecendo a indignação elaborada de boutique? acham mesmo que gritar em redes sociais contra a injustiça faz a injustiça sumir?

será que a mulher que teve seu corpo devassado de forma tão vil precisa mesmo desses defensores de fim de semana? ou seria melhor que tivesse pessoas sérias lutando por ela? advogados que se posicionassem e dessem caminhos jurídicos para que ela se defendesse de forma consistente? delegados e mesmo delegadas que fossem menos machistas e mais acolhedores não seriam, de mais valia do que estas mulheres que se indignam até onde os seus próprios namorados deixam a indignação fluir?

fosse outro este país e talvez este ejaculador ambulante estaria ainda preso, mas não digo isso como aquela acusação genérica e pouco eficaz de que nosso país não presta. não, nada disso. nosso país existe porque pessoas o compõe, logo, quem não presta são a grande maioria das pessoas que compõe o país. não é o país que degenera as pessoas mas sim o contrário. infelizmente. é fácil falar,tecer comentários espirituosos, ter um ponto de vista sofisticado sobre assuntos vis como esses mas é bem difícil buscar uma identidade como nação que produza uma agenda positiva que aos poucos vá mudando o estado das coisas, até porque desconfio que ninguém quer mudanças que vão além da superfície pois não temos uma interlocução propositiva entre os vários setores sociais do país.

tudo é gritaria quando a merda acontece, para rapidamente ser dada a descarga e a vida prosseguir. não queremos um país melhor, queremos um país de merda mesmo.para que a vida nos forneça matéria prima para que nossa indignação de mentira produza comentários vazios quanto aparentemente inteligentes.

a moça que teve o corpo devassado, desejo justiça, apenas justiça. a quem dela se utiliza para dar forma verborrágica ao vazio que lhe consome usando palavras que parecem fazer sentido mas são tristemente descabidas, desejo que em algum momento você veja o quanto de energia se desperdiça quando se tenta mudar o que é ruim sem querer de fato mudança. falar é fácil e vai prosseguir sendo, porque o a gir, que é difícil, é algo que ninguém quer.

é isso.

ouvindo: daniela araujo
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