Carta a Theodore no Trem das Oito
Quando pela manhã o trem se põe a rodar sobre os trilhos, levando tantas e tantas pessoas — todas com seus tantos e tantos pensamentos, anseios, ilusões, desilusões, esperanças e também suas desesperanças —, quando este trem, que carrega mais gente por vez do que deveria (pois ninguém pode esperar pelo próximo devido aos atrasos de sempre), me carrega também com ele em uma de suas viagens. E eu levo minhas esperanças, desesperanças, ilusões e desilusões, e me vejo só em meio a uma multidão onde a grande maioria também se vê só. É possível uma solidão coletiva? É possível sentir-se abandonado em meio à multidão? Vejo escorrer meus sonhos pelo chão sujo do trem e sei que, embora eu os sonhe todos os dias, eles nunca se farão reais. Sonhos não cabem na vida ordinária de quem pega trem todos os dias em busca de sobreviver. Sonhos são para os realmente afortunados, que podem realizá-los com um clique — mais rápido do que o trem demora para ir de Osasco a Pinheiros. Sonhos não me perte...