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Notas Sobre o Fim e o Concreto

Quando Richard, o genial personagem de Ed Harris em As Horas , vira-se para Clarissa — interpretada pela não menos incrível Meryl Streep — nos segundos que antecedem sua morte, ele diz: "Acho que só me mantive vivo até hoje para agradar você" . Em seguida, deixa seu corpo flutuar em direção ao solo, jogando-se da janela aberta de seu apartamento. Naquele exato momento, há 24 anos, assistindo ao filme ao lado da minha namorada da época, Fabíola, no cinema do Shopping Santa Cruz, eu me vi sem palavras. Nenhum pensamento se conectava de forma clara. Eu me vi sem ar. Não havia raiva a se sentir, nem medo da queda, nem angústia. Não havia dor pelo destino do personagem, tampouco por Clarissa, que gritou de forma abafada e sentida. Não havia tragédia a ser analisada ou lágrima a se verter. Só havia o entendimento cristalino, puro e simples, de que às vezes parece não haver nada melhor que o fim — ainda que o fim seja a morte, ainda que ele liberte de forma definitiva e irreversível...

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