domingo, 10 de dezembro de 2017

45 Anos


Sou Davi Miranda Rocha, tenho 45 anos completados ontem, uma filha de 17, casado, corretor de  imóveis sob o Creci SP 135060, gordo, feio e nem um pouco interessante. Tenho veleidades literárias mas meus escritos são pouco mais que uma piada de mal gosto daquelas a qual ninguém ri de verdade, mas por dó solta aquele risinho amarelo. Meus escritos recebem um ou outro elogio, mas são apenas falas protocolares, nada mais.

Minha vida é na verdade bem sem graça porque se um dia fui sim um puta corretor de imóveis, hoje sou uma pálida imagem do passado. Já fui um cristão fervoroso e por fervoroso, não entendam carola ou daqueles que julgam a tudo e todos, eu apenas tinha fé. Hoje, não mais. Que triste.  Sou um homenzinho bem sem graça, esta é a verdade.

Em meu Instagram e Facebook posto apenas bobagens inomináveis e interajo de forma ridícula com um boneco ridículo que veio junto com um lanche que comprei no  Mac Donalds.  Tal qual Barry Egan  interpretado por Adam em "Punch, Drunk, Love" (Embriagado de Amor na horrível adaptação brazuca do título) sou alguém deslocado de meu próprio universo, porque não consigo interagir de forma coerente com seres humanos. Me sinto sempre no "cantinho do castigo" com um chapeuzinho tipo cone na cabeça e acho que ja me acostumei a ficar de canto mesmo.

Se alguém demonstra gostar de mim hoje, eu vou acordar amanhã achando que me enganei, porque não creio que alguém possa gostar verdadeiramente de alguém tão chato e irritante como eu. No fim das contas de tanta insegurança as pessoas se cansam e acabam não gostando mesmo e tudo fica dentro da normalidade. Tive uma única amiga até hoje, mas ela morreu cedo demais e desconfio que se tivesse crescido seria mais uma a me deixar de canto.

Não tenho filtros e sempre falo o que penso.  Não aprendi a guardar minhas opiniões nem dizer o que não penso para agradar e ser aceito. Desconfio que agora, com mais da metade da vida já vivida, não vai rolar de eu aprender. Raramente alguém inicia alguma conversa comigo e por ser, acreditem ou não, tímido, posso passar o dia sem falar com quem quer que seja. Meu medo de incomodar é grande e quando inicio uma conversa e ela fica no vácuo, aprendo que deveria sempre ficar calado. Acontece que nem sempre levo meus aprendizados a sério e ai acabo me machucando.

Tenho uma sensibilidade muito grande e a escondo sendo uma pessoa de gestos em modos brutais, porque toda vez que me mostro como sou, acabo ouvindo coisas que me magoam e raras são as pessoas que se importam se me magoaram ou não. Por conta disso, em 45 anos de vida, já pensei algumas vezes terminar com minha vida, mas sou covarde demais para isso e sempre acabo prosseguindo a vida ainda que ela as vezes não pareça fazer o menor sentido.

Todos querem sentir-se especiais para alguém em algum momento, eu creio nisso. Eu não consigo porque não consigo me fazer especial. Sou uma farsa, um engodo e sei bem disso. Aos 45 anos, eu deveria completamente diferente do que sou, mas ontem, deitado em minha cama, percebi que no fundo, lá no fundo tudo o que eu penso ou sinto não tem a menor importância. Minhas pretensões profissionais, literárias e todas as outras são apenas uma cortina de fumaça escondendo um homenzinho ao qual ninguém da a menor bola por ser como é.

Ontem eu percebi, com um travo de amargura, que sou completamente dispensável deste mundo.  Aos 45 anos, eu me vi como sou e como me veem, "sai do corpo" e me observei. E não gostei do que vi.

É isso.

Ouvindo: Tom Jobim
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