domingo, 17 de dezembro de 2017

E Ele Que Era Quadrado (Porque Ontem Assisti "Extraordinário")


E ele, que só sabe escrever e ainda o faz muito mal e porcamente, percebeu-se um quadrado em um mundo de redondos. Tudo ficou então mais claro e fácil de ser entendido, porque ele sendo quadrado tinha imensa dificuldade de se relacionar com os redondos a sua volta. Quando se é diferente, não se pode exigir tolerância com os que são iguais entre si. Ser quadrado em um mundo de redondos só traz aquelas sensações básica de não pertencimento, de não se encaixar, de saber que se está fora do prumo usado por todos.

E ele, que sendo quadrado não tentava se arredondar, sofria mais que os outros poucos quadrados em um mundo redondo que tentavam ao menos se encaixar. Ele achava que a vida era assim mesmo e tinha dado o azar de nascer quadrado então bola (quadrada) pra frente. Até que... ... Bom, um dia ele se apaixonou. E foi por uma redonda. E viu que estava em sérios apuros.

Redonda, andava com outros redondos, é obvio. Tinha uma família de redondos, gostava da vida redonda que levava, mas de forma surpreendente até que achou ele, que era quadrado, uma pessoa interessante. Afinal, ele que era quadrado, era lido e sabido, escrevia, tinha uma prosa bacana, em outras palavras, era um quadrado bacana.

E ela, redonda como o Sol, achou que poderia conhecer melhor a ele, que era quadrado. Descobriu no entanto, no decorrer do caminho, que quadrado não se encaixava, por óbvio que seja a metáfora das formas geométricas, o amor, quando nasce desconhece esses parâmetros matemáticos. Ele, que era quadrado, era só amor e paixão, ela, redonda como a Lua, era inquietação. Ele, mesmo tão quadrado quanto podia ser, ouvia  Tom Jobim e achava a fonética de de "Dindi" parecida com a do nome de sua redonda e chorava ao ouvira obra prima de Tom. Ela, a redonda que tentava se encaixar no quadrado, via estupefata que ele, tão quadrado quanto só ele podia ser, não conseguia se encaixar nos anseios redondos dela, redonda desde sempre.

Um dia, ele, que era quadrado, mas não era burro, muito pelo contrário, percebeu que os anseios dela e os dele eram muito diferentes e ele, quadrado mas plural achava que isso era natural, afinal cada um pensa de um jeito e o amor da a liga, é a cola para que as relações entre diferentes se fixem. Mas ela, redonda e sociável tinha tanto e tantos amigos e esses amigos tomavam seu tempo de uma forma maior do que quadrado achava razoável.

E ele, quadrado e circunspecto (para não dizer insociável) viu que não se encaixa nas redondices do mundo e infelizmente nas dela também. Restava, como dizia um compositor redondo que ele admirava, ouvir Tom e chorar. E sendo quadrado como só ele era e sentimental e de natureza triste, resolveu acabar com o sofrimento quadrado que lhe atormentava. Comprou um vinho Lambrusco redondo, tomou toda a garrafa e outra e mais outra e com a coragem dos homens embebidos de vinho, foi a uma ponte bem alta onde por baixo passava um rio bem fundo e resolutamente atirou-se. Não, ele que era quadrado, não sabia nadar. Mas sabia morrer romanticamente por amor. E o fez.

É isso.

Ouvindo: A trilha sonora de "Extraordinário"
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