A Ópera do Asfalto


A 11 anos atrás, escrevi esse texto. Vale uma nova publicação.

Sim, eu me despi. Fiz algo que achei que jamais faria — e foi libertador, além de financeiramente vantajoso. Como não vivo minha vida em função do dinheiro e quero mais é que ele se foda (se não aguenta certas palavras, beba leite), não é dele que falarei.

Fui para um farol. Ok, era um farol em frente ao plantão de vendas, mas eu fui. Fiquei mais de oito horas embaixo do sol, de gravata, ouvindo impropérios mil, gracinhas, palavras de incentivo e até uma cantada (pobre e cega mulher!). Por que eu fui ao tal farol?

Temos um produto para lançar e ele precisa estar viabilizado. Sem entrar em detalhes chatos, não estava — e ainda não está — mas agora falta pouco. O plantão todo tem se esforçado; é preciso que todos tenham reservas suficientes para o lançamento para que possam ganhar, seja vendendo uma unidade ou uma laje. Então, vi um garoto, daqueles imberbes do post anterior, abordando clientes naquele farol. Senti-me mal. Envergonhado. Muito envergonhado de vê-lo ali trabalhando enquanto eu conversava sobre o nada. E fui para lá também.

Com total desassombro, dei-me muito bem. Conversei, dei risada, fiz amizades (e não é força de expressão, fiz mesmo) e reservei duas unidades, levando os clientes diretamente para o plantão. Aos 41 anos, senti-me liberto de alguns preconceitos e renovado, pronto para ser eu — só que de outra forma. Ser um "eu" diferente do que fui; ser eu, novo e de novo.

Sei que tudo o que me cerca é permeado por uma dramaticidade que outras pessoas não enxergam. Sou uma ópera de Wagner; sou Tristão e Isolda (de longe, a melhor delas). Não vejo a vida como todos veem, então estou extasiado comigo mesmo agora que a adrenalina baixou. Isto não é um post, é uma louvação a mim mesmo que você não tem obrigação alguma de ler se tiver coisa melhor para fazer. Se não tiver nada melhor que ler isto, pare e se mate! É sério!

Descobri ali, entregando folhetos que anunciavam apartamentos de 32 m² com parcelas de R$ 490,00, que se tenho que fazer isso embaixo do sol, devo fazê-lo com a mesma virtude com que Maria Callas emocionava o mundo ao cantar "La Mamma Morta". Não posso fazer menos que isso. E assim o fiz. Acabei com as pernas doloridas, nas canelas e nas coxas, de tanto andar e ficar em pé. Atravessei a rua um sem-número de vezes, repeti o mesmo discurso zilhões de vezes e fui recompensado.

Fui ridicularizado também, tanto por motoristas quanto por outros corretores. Fui olhado como um lunático, só que eu sou, de fato, um lunático, então isso não me atinge. À medida que entregava os panfletos, via a vida passar. Metáfora trouxa e frouxa! Afinal, dizer que vê a vida passar no meio de uma avenida é de uma pobreza — quase uma indigência mental — de dar dó. Mas eu vi. Ela passava por mim e, sei lá por que, entrei em uma espécie de transe, de torpor que só eu sentia e que, ao mesmo tempo, me fazia prosseguir. Em determinados momentos, abria a boca e o discurso saía sem eu querer. O folheto ganhava vida própria e minhas mãos, como as de um Robocop fora de forma, ofereciam-no ao motorista que o pegava, talvez com medo do olhar vidrado que certamente eu lhe oferecia.

Vi que a vida pode ser interessante e pulsar, mesmo quando fazemos algo que não queremos ou achamos absurdo. Coloquei minha alma, meu coração e minha vida naquele asfalto quente. Senti que precisava fazer aquilo não apenas pela vergonha inicial ao ver o guri, mas porque a vida é feita de iniciativas, e elas têm me faltado ultimamente. Fiquei surdo ao negativo e até ao positivo, pois precisava viver essa experiência apenas comigo mesmo. Por mais dramático que pareça este texto para algo que é, na verdade, bem banal, para mim foi um drama vivido de forma intensa e única. Como um concerto de Maria Callas.

Para quem vive bem abaixo do padrão Montserrat Caballé — na verdade, muito mais para Carmen Miranda do que para uma diva do canto — ter seu "momento Callas" foi emocionante. Tão intenso quanto minha Diva cantando "Ave Maria", uma canção que nem posso ouvir muito porque, de tão linda na voz dela, dá vontade de virar um marianista de corpo e alma só para cantá-la livremente.

Existem experiências que te transformam. Aqueles dias de farol me farão ser outra pessoa. Ainda não sei como, mas farão. Não fui apenas vender apartamentos ou ganhar dinheiro (embora ele venha por inevitabilidade quando um corretor bom faz seu trabalho); sinto que fui àquele farol para me transformar, me purificar, para tirar de mim, com um banho de sol, tudo o que eu carregava de desnecessário.

Aquele farol foi minha "Ave Maria". Foi um momento tão belo que a dor, a tristeza com certas passagens e a preocupação com o futuro ficaram ali, escorrendo pelo asfalto, enquanto eu me enchia de uma vigorosa vontade de viver melhor. Como se eu fosse Tristão e Isolda, como se Wagner tivesse me escrito e eu fosse o centro dos aplausos quando a cortina se fechasse, anunciando o fim de uma panfletagem que pareceu muito mais uma ópera bem interpretada, com graça e maestria.

Só percebi tudo isso horas depois, quando a adrenalina baixou e vi que reservei duas unidades que não teria conseguido esperando o ar-condicionado do plantão condicionar a minha vida.

É isso.

Ouvindo: Maria Callas

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