sábado, 15 de fevereiro de 2025

Preciso Me Encontrar (Deixe-me Ir)

 

Cartola diz em sua antológica canção: "Deixe-me ir, preciso andar, rir pra não chorar". eu só não sei chorar por minhas emoções, mas sei chorar quando a arte se apresenta a mim. Cartola foi tão cirúrgico, tão lindo em suas palavras, na melodia, na entonação dada a cada nota que proferia que me faltam palavras  e sobram lágrimas.

Eu ando, todos os dias ando muito, e no meu caminho, que começa cedo eu tenho a chance de ve a Lua ir dormir e o Sol nascer. é lindo, mas confesso não m emociona, pois eu preferia estar dormindo. Ultimamente, eu preferia estar dormindo a ver o Sol nascer, a comer, a vender, a fazer qualquer coisa. Como dizia Cartola, rir pra não chorar.

Mas se eu não sei chorar, tão pouco sei rir muito bem. Meu riso é nervoso, ácido, vacilante, como se rir não fosse para mim. Eu ando, ano e ando mais um pouco, mas não consigo ir. Não vou a lugar algum, apenas ando e rio para não chorar. No Meu andar, eu vejo as águas do rio (Tietê) correr e não deixa de ser sintomático, que o rio que todo dia eu vejo seja um dos poucos que não vai desaguar o mar. Sempre que passo pela ponte e o vejo, eu percebo que eu também não desaguo em lugar algum e nunca desaguarei. Eu apenas ando, e ando e ando mais um pouco.

As minhas memorias de infância são firmes como as de Rachel, personagem de Blade Runner, mas como as dela me parecem não ser minhas. Por mais que eu saiba que eu estava lá, sendo criança, vivendo tudo o que me lembro que vivi, me pergunto se são minhas realmente estas lembranças ou se são apenas folhas ao vento que caem de diversas árvores e ao se unirem em um monte delas formam um todo fragmentado em várias partes. Tudo é muito confuso.

Eu não tive pai, mas será que tive realmente mãe? Ela me parecia tão jovem. Não seria minha irmã mais velha a me criar? Minha irmã Fernanda que se foi sendo a única que me amou de forma genuína seria minha sobrinha? Ela de fato existiu? Afinal ela pode ser como a ovelha elétrica dos sonhos de Deckard, ou o cavalo de origami. 

Eu tenho 52 anos e me dei conta de que não sei quem eu sou, de onde eu vim e muito menos para onde eu vou. Deixe-me ir preciso andar. E nessas de não saber quem sou, se tive pai, se tive mãe, se fui uma explosão da natureza em fúria que se firmou ou qualquer outro absurdo. Eu ando e não me encontro. E sou invisível. Pior, sou aquele sujeito de invisibilidade bem seletiva.

Quando é interessante para algumas pessoas, elas me veem. Veem e exaltam, e me fazem sentir especial, sentir que sou necessário. Quando a utilidade passa, sou o mesmo invisível de sempre. Existem vantagens em ser invisível, é o que digo para mim mesmo. Mentira. Bom mesmo é ser notado e eu não sou. Preciso me encontrar.

Na verdade, não há ninguém que me impeça de ir a lugar algum. Eu não vou porque mesmo sabendo que minha presença não será notada, eu prefiro a ilusão que será, que precisam de mim, que eu valho alguma coisa quando sei por experiência própria que nada valho, que qualquer pessoa me substitui de onde quer que eu esteja com muito mais graça e eficiência.

Deixe-me ir, preciso andar. Sorrir pra não chorar.

É isso.

Ouvindo: Cartola

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