O Preço de Não Ouvir Gail: Uma Leitura de Carlito’s Way
Quando assisti a Carlito’s Way (O Pagamento Final, na sempre péssima tradução da distribuidora brazuca), filme de Brian De Palma com Al Pacino, Penelope Ann Miller e Sean Penn liderando coadjuvantes como John Leguizamo, Viggo Mortensen e Luis Guzmán, percebi logo de cara que não era apenas um filme. Era uma masterclass, uma aula inesquecível de como construir personagens, estruturar uma história e, sobretudo, prender o espectador na poltrona. Nem me lembro de ter respirado direito, nem sei se pisquei até o ápice final deste que, para mim, é o melhor filme sobre o crime já feito — empatado com Os Bons Companheiros (Goodfellas).
A atuação de Pacino é comovente, cirúrgica. Te pega pela emoção, mas também te coloca para pensar que todos fazemos más escolhas de vez em quando e somos dignos de redenção — só para entender, logo em seguida, que a redenção nunca vem se você continua a se envolver com as pessoas erradas e a tomar atitudes que vão contra o seu desejo de mudança. Pacino não atua; ele dá aula.
Quando Penelope Ann Miller entra em cena, traz uma suavidade tão marcante — tornando sua personagem tão frágil e tão resoluta ao mesmo tempo — que não existe outra saída a não ser invejar Carlito Brigante por ter o amor daquela mulher. Durante toda a projeção, ninguém lembrará que ali existe uma atriz, porque tudo o que se quer é que ela seja Gail: a mulher que dança divinamente, que em sua fragilidade o acolhe, o empodera e quase — quase — o redime.
E quanto a Sean Penn, o que falar? Seu tipo mau-caráter e escroque é tão crível, tão verossímil, que não deixa dúvidas de que ele acabará com a vida de Carlito, mesmo tendo-o libertado da prisão. Ou melhor: ele o libertou para usá-lo. É um ser sem caráter e sem escrúpulo algum, que vive para o próprio prazer e leva de roldão todos ao seu redor.
Mas seria uma injustiça culpar apenas o personagem de Penn pela derrocada de Carlito. A culpa também é do lobo que ele carrega dentro de si e alimenta diariamente. Nós, homens, gostamos de repetir que "um homem tem que fazer o que tem que fazer". Balela! Se Carlito tivesse ouvido Gail, estaria vivo e feliz. Não existe justificativa plausível para não ter ouvido o que ela dizia insistentemente, a não ser o fato de ele ter dado ouvidos ao lobo dentro de si mesmo.
De Palma convida quem assiste a Carlito’s Way a refletir sobre escolhas, sobre o bem e o mal, e sobre as consequências. O preço a pagar pelos riscos que assumimos de forma impensada sempre pode nos perseguir e nos alcançar quando estamos a poucos passos da felicidade. O filme deixa isso dolorosamente claro. É uma obra que recomendo de forma categórica: um dos 50 filmes imperdíveis para se assistir antes de morrer.
Infelizmente, o longa foi esnobado pela Academia e não concorreu a sequer um Oscar. Pacino merecia o troféu de Melhor Ator, assim como Penelope Ann Miller também merecia o de Coadjuvante.
Assista a Carlito’s Way. Vale cada segundo em frente à tela.
É isso.
Ouvindo: o conterrâneo de Carlito, Bad Bunny.
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