Deus Gargalha e o Argo Anda
A vida, sempre tão cheia de contingências... A vida que se vive um dia após o outro e na qual, a cada plano que faço, Deus gargalha. Essa vida doida e sofrida, com alguns raros bons momentos; vida que não tem fruição, mas sim batalhas inglórias no dia a dia; essa vida que tem uma dor por dia para oferecer, me levou ao banco de um Fiat Argo 2026 e fez de mim um motorista de Uber.
Antes que a pergunta se faça: não deixei e jamais deixarei de ser um corretor de imóveis. É isso o que amo fazer. Mas a vida não é vivida apenas de amor. A vida pede esforço e vontade para se fazer o que muitas vezes não se gosta — e talvez, eu disse talvez, ela te ensine a gostar do que antes parecia ruim. Não sei se pela repetição que pode gerar anestesia, não sei se de tanto ver o feio cria-se afeição por ele e belo ele se torna. A vida te dá caminhos e descaminhos, mas quase tanto um quanto o outro vêm com respostas.
E ser um motorista de Uber — o que eu sempre achei que feriria de morte a minha alma e a minha essência — tem sido uma atividade surpreendentemente agradável até aqui. Dirigir por vias pelas quais nunca tinha passado, revisitar lugares que conheço como a palma da minha mão, e tudo isso ouvindo histórias contadas por completos desconhecidos... Ou apenas ouvir o silêncio ensurdecedor de duas pessoas que, por serem tão estranhas uma à outra, nada têm para conversar. Tudo isso tem me feito olhar o mundo de outra forma.
A forma como reagem ao meu "vai com Deus", ao descerem do carro, diz muito sobre elas. Assim como a disposição de falar de suas vidas, de contar "causos", ou de querer saber da minha vida — que é tão sem graça. Eu sempre planejei e agora percebo: Deus sempre gargalhou.
Ser motorista de Uber nada mais é do que servir pessoas que, mesmo sem muito recurso, estão ali sendo minhas patrões, ainda que pelo tempo que uma corrida durar. Umas não se dão conta; outras querem dar ordens, pedindo (ou mandando mesmo) que eu corra mais, ou vá mais devagar, que eu faça o melhor caminho, que eu converse ou que fique em obsequioso silêncio. E, no meio disso tudo, sinto a paz invadir o meu coração, porque, de forma íntegra e honesta, estou trazendo o sustento para a minha casa e para a minha família.
Não há por que sentir-me ferido ou algo do tipo, porque tenho trabalhado bem e de forma correta. Quanto à corretagem de imóveis, o Uber me dá a perspectiva de que ela sempre permanecerá presente e ativa em minha vida, pois jamais descartaria o amor que sinto por ela. A vida — essa vida que sabe ser perversa ao destruir sonhos e me acordar dos melhores delírios, essa vida que aperta até quase sufocar —, ela também é capaz de nos mostrar, ainda que através de lampejos, que a felicidade é possível. E pode estar atrás do volante de um Fiat Argo.
É isso.
(Ouvindo: Sinal Fechado – Paulinho da Viola)
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