Lula Venceu, Mas o Brasil Continua no Impasse
A vitória de Lula e a conquista de seu quarto mandato presidencial foram de fato surpreendentes em certa medida — não porque se imaginasse que ele não pudesse vencer, mas porque, novamente, um membro da família Bolsonaro honrou a tradição de sua linhagem de perder para si mesmo. O conjunto de erros que Flávio cometeu durante toda a sua campanha o levou a uma derrocada que, se não era amplamente esperada, tampouco surpreende.
A Flávio faltou ser propositivo. Enquanto Lula foi mais do mesmo, Flávio foi raivoso, replicando o mesmo discurso de seu pai, que pregava o medo, a desunião e batia de forma incessante no nome de Deus — entidade que nada tem a ver com eleições, ocorram elas em qualquer parte do globo. Esse tom pode funcionar com os convertidos ao bolsonarismo, mas não convence os indecisos, tampouco faz aqueles que rejeitam o estilo Bolsonaro mudarem de ideia. Os Bolsonaros são os adversários que todos querem ter, já que lutam entre si e contra si mesmos.
Enquanto Lula entregou um governo fraco do ponto de vista da economia, do desenvolvimento e de tantas outras áreas, a Flávio bastava propor mudanças sérias. Bastava que as lacunas fossem preenchidas. No entanto, ele, juntamente com sua equipe de aloprados, preferiu bater em temas já repisados exaustivamente, como a defesa do conservadorismo, a instrumentalização da fé, a negação da ciência, a rejeição das mudanças climáticas e uma agenda econômica comandada por uma figura sem densidade intelectual. Se fez economia, só pode ter sido em alguma faculdade bem obscura, pois suas propostas, além de risíveis, eram inviáveis. Lula? Apenas ria no canto, vendo a derrocada do adversário ser turbinada pelo próprio cotidiano da campanha.
Flávio se apoiou nos evangélicos; Lula, na juventude (inclusive na juventude evangélica). Enquanto a campanha de Flávio contava com seus papagaios falantes e raivosos — como Nikolas Ferreira (30 anos), Lucas Pavanato (28 anos) e Ana Campagnolo (35 anos) —, Lula tinha a esmagadora maioria dos artistas do país a seu favor. De novo, Flávio falou apenas para a sua bolha, representado no máximo por cantores sertanejos como Leonardo, Eduardo Costa e Gusttavo Lima, enquanto Lula reunia atores, atrizes, cantores, humoristas e a nata da cultura brasileira ao seu lado. Uma covardia tática.
Lula tem 81 anos e é o presidente mais velho que o Brasil já teve; mesmo assim, deu uma surra em Flávio, décadas mais novo, por pura incompetência do adversário. Serão mais quatro anos em que a política do "toma lá, dá cá" de Lula prevalecerá, e não podemos, infelizmente, esperar nada além de poucas ações pontuais.
A esquerda precisa preparar quadros que possam substituir Lula ao final de seu mandato, sob pena de ser apeada do poder nas próximas eleições. Não adianta a um líder ter apenas carisma; é preciso competência administrativa e uma visão de mundo que concilie crescimento econômico com distribuição de renda o mais equânime possível. Lula afastar Janja no segundo turno foi um dos fatores fundamentais para sua vitória. Daqui a quatro anos, se não houver um nome que aglutine de forma séria as forças progressistas deste país, veremos a direita sentar-se novamente na cadeira da Presidência — e todos os esforços feitos até aqui serão jogados por terra.
Desejo boa sorte a Lula, mas desejo mais sorte ainda ao nosso país.
É isso.
(Ouvindo: Sabotage)
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