O Cartaz de Guarulhos
Eu, com toda a brutalidade que habita em mim desde o dia em que nasci — creio eu —, sou uma pessoa que grita. Mais do que gritar: eu berro. Eu dou soco nas coisas e, se possível, nas pessoas. Tenho uma raiva surda dentro de mim, e é ela que me move. A raiva que sinto do mundo e das pessoas me move. Não sou movido pela bondade e pelo amor, por mais que eu gostasse de ser. O ódio é meu amigo, e sei que isso não é bom. Mas eu simplesmente não sei ser bom.
Eu não sei sorrir e, mais importante, não quero aprender. Sei que se eu sorrir para quem quer que seja, se eu for simpático, se eu gostar de chuva ou de sol, não serei eu. Sou casmurrão — me tornei, nasci. E por mais que eu veja beleza nas artes, que eu me emocione com uma ária bem interpretada, com um livro divinamente escrito ou um filme visualmente belo que conte uma história que me prenda, gosto de viver sozinho cada uma dessas emoções.
Não sei dar opiniões de forma elegante e educada. Minhas palavras são brutas, são definitivas e não deixam margem para discussão, pois as minhas convicções eu as tenho como as mais corretas e brilhantes. Paradoxalmente, acredito na pluralidade de ideias e defendo o direito de todo e qualquer ser humano discordar de mim, mas não quero ser convencido de que estou errado — mesmo que, em algumas vezes, tenha sido, ainda que sem dar o braço a torcer.
A minha timidez, sempre tão latente, me torna quase antissocial. Não gosto de conversar com pessoas. Sim, como corretor de imóveis, preciso conversar o tempo todo com clientes, chefes e outros corretores. Mas, neste caso, existe um objetivo: ganhar dinheiro para que minha vida possa existir e acontecer de forma minimamente digna. Não há prazer (já houve, confesso) em vender um imóvel. Apenas uma vontade louca de fechar o negócio o mais rápido possível para me livrar do cliente — que, muitas vezes, insiste em ser extrassimpático com quem é extrarabugento e prefere o silêncio, enxergando de forma nítida a sinfonia que existe na falta de som.
Quando eu era criança e ia à igreja, existia uma música cantada pelas crianças que dizia: "Se você está feliz, bata palmas". Acho que nunca estive feliz, pois me lembro nitidamente de nunca bater palmas. Na verdade, achava idiota — hoje tenho essa clareza — o fato de bater palmas por estar feliz. Ficava quieto, no meu canto, vendo as crianças correrem para os seus pais no final do culto, enquanto eu não tinha um pai para quem correr. E aí? Eu devia ainda bater palmas?
Depois, já adulto, uma outra música cretina me perseguia. Ela dizia: "Abrace seu amigo e diga que o ama". Como assim? Que banalização da amizade e do amor mais absurda é essa? Só porque frequentamos a mesma igreja devemos ser amigos de todos os que sentam ao nosso lado? Impossível! E falar que os ama? Existe canteiro com solo mais fértil para a fofoca e a mentira pura e simples do que uma igreja, seja ela de qual denominação for? E eu devo dizer que amoquelas pessoas e que delas sou amigo? Desculpem, mas eu passo.
Sou um homem de 53 anos, cheio de dores pelo corpo, que não gosta das pessoas e que se pela de medo de que alguma goste de mim. Deveria fazer terapia, mas acho que meu caso seria entediante para o terapeuta, e não vou submetê-lo a tal desdita. Amanhã, começo uma segunda profissão. Além de corretor de imóveis, serei Uber por algumas horas do dia. Meus passageiros terão o meu silêncio — o que pode ser uma bênção —, e eu não quero a maldição de suas conversas. O silêncio, cada vez mais, me acalanta.
Quando eu era criança, minha mãe trabalhava em um hospital em Guarulhos, o Hospital Brasil. Nunca esqueço que, pelos corredores, havia um cartaz com uma enfermeira de olhar assustador com o indicador colado aos lábios. Embaixo de sua foto, em letras garrafais, lia-se: SILÊNCIO. Eu tinha medo daquela foto e do que o silêncio significava. Hoje, eu abraçaria aquele cartaz. Pois tudo o que quero na vida é isso.
Silêncio.
É isso.
(Ouvindo: O magistral Pet Sounds, dos Beach Boys)
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