Se um dia eu encontrar meu pai

"Enquanto voava em direção a Califórnia, para resolver o Problema de Fontaine, Tom Hagen pensava na vida que levava. Tinha 35, anos era rico, e poderia considerar-se um adulto racionalmente feliz. Pensava no dia em que fora levado a casa de Don Corleone por Sonny, um menino arrogante e bondoso de 11 anos de idade. Ele vagava pela cidade como um cão a espera da morte com uma infecção no olho.

Sem discutir a questão de forma alguma Don Conrleone o aceitou em sua casa. Deram-no um prato de espaguetti com molho de tomate cheio de óleo cujo o gosto ele jamais esqueceu. Deram-no também uma cama de metal desmontável para dormir.

Dom Corleone o levou ao médico e curou-lhe a infecção no olho. Enviou-lhe a faculdade e depois de formado, ofereceu-lhe ajuda, quer montando um escritório, quer enviando clientes.

Em tudo isso Don Corleone procedeu como um tutor, não como um Pai, embora fosse curioso que tratasse Hagen com mais cortesia que a seus próprios filhos. E sempre dizia a Hagen: - Nunca esqueça seu pai, Tom. Como uma espécie de lembrete a Hagen e a si mesmo."
Trecho de O Poderoso Chefão.

Tenho 36 anos e sou um sujeito racionalmente feliz. Mas falta um pedaço em mim. Tenho uma esposa que amo, tenho minha filha que amo, tenho minha fé. Tenho amigos, tenho minha profissão. Mas não conheci meu pai. Conheci alguém que tal qual Don Corleone sempre me tratou como um tutor, mas nunca como um pai verdadeiramente.

Mas isso nem de longe é tudo... É na verdade muito triste. Não ter um pai porque ele morreu é aceitafvel, ele morreu, é da vida, mas não ter um pai porque ele não quis de te conhecer... Sabe, você acaba sendo um rejeito biológico que deveria ter sido descartado mas por um erro na manipulação acabou industrializado. É assim que me sinto. Algo que deveria ter ido para descarte, mas por um erro qualquer, vingou.

Seu encontrasse meu pai lhe perguntaria porque me abandonou. Minha mãe é claro que foi abandonada por não significar nada para ele. Mas ele nem teve a curiosidade de saber se eu seria um cara legal? Se eu ia parecer com ele? Se eu ia pensar com ele?

Não passou pela sua cabeça que talvez eu fosse querer jogar bola com meu pai? Que talvez em vez de ser goleiro eu poderia ter escolhido ser atacante com o incentivo dele?

Nunca pensou este senhor que talvez eu tivesse orgulho de dizer algo como " Este é meu pai"

Eu iria perguntar pra ele também se ele nunca pensou que um ser humano que foi abandonado pode sentir-se como um filhote de cachorro. Porque no fundo é isso mesmo, cachorros copulam com as cachorras e saem fora. Elas carregam os filhotes e depois tem que amamenta-los e cria-los, os cachorros machos a esta altura, estão procurando outras fêmeas no cio.

Ia dar todos os presentes que fiz na escola e que teriam como destino meu pai. Claro que quem não deu valor para a minha pessoa não ia dar valor aos presentes que fiz de forma desajeitada... Mas eu ia dar um jeito de entrega-los mesmo assim, sou cara de pau.

Se eu encontrasse meu pai, ia dizer que nada tenho a ver com o fato de ele e minha mãe terem resolvido copular de forma irresponsável, sem camisinha não lhe da o direito de esquecer que gerou um filho.

Mas por outro lado agradeceria seu abandono, pois fez de mim um pai muito, muito presente na vida da minha filha.

É isso. (Na verdade hoje teria muito mais pra ser dito, mas quem me abandonou não merece mais linhas)

Ouvindo: Leonardo Gonçalves

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