Quando eu morrer. Um pequeno manual de instruções. (bom, talvez nem tão pequeno assim)

A rigor, besteira minha pensar na própria morte, porque afinal eu nada saberei, estarei dormindo aguardando a volta do Rei Jesus.

Pessoas queridas ficarão. Imagino que será um velório pequeno. Poucas pessoas, porque eu mesmo nunca gostei de velório e constantemente fujo de ir a algum. Na verdade, meu maior medo é "virar! depois de morto, uma pessoa legal.

Não sou legal em vida e tenho plena consciência disso, então, por que eu deveria ser legal depois de morrer? Por que temos o hábito de achar o melhor das pessoas depois que elas se vão? Não seria muito melhor buscarmos o que cada um tem de bom agora? enquanto estamos vivos? Então, quando eu morrer não precisa haver o inútil exercício de buscar coisas boas em mim.

Outra coisa que dispenso: o choro. Talvez por não saber chorar não quero choro em meu velório e enterro. Podem contar piadas, montar um telão e passar episódios de THE WEST WING. Ta ai, isso sim seria algo bacana, eu morto lá no caixão e o presidente Bartlet fazendo as piadas sem graça dele. Mas falando sério, acho que o choro tem que ser dado a quem realmente merece, é algo muito especial e sei bem que não sou "especial" para ninguém. ( O grande mal de conhecer a si mesmo é saber de pequenos inconvenientes com esse). Se alguém quiser chorar, corra para o banheiro e não passe o ridículo de chorar por alguém tão besta quanto eu.

Sobre a roupa. Se possível, me enterrem com uma camisa do Santos. Os vermes a devorarão em questão de dias, mas ao menos todos saberão de minha paixão pelo alvinegro praiano que tanta alegria me dá. E de mais a mais, não posso ser enterrado pelado, acho meio indecoroso, então... Mas aqui cabe uma reflexão: Eu só durmo pelado e a morte da forma como eu a entendo é um sono, logo, talvez eu deva ser mesmo enterrado pelado. Isso, me enterrem pelado, eu me coço muito a noite se ponho alguma roupa. Joguem muitas flores, ou mesmo grama, sei lá, para tapar minhas partes púdicas, por assim dizer.

Por favor, coloquem música, o tempo todo, deixem The West Wing para lá. Quero mesmo é muita música. Steven Curtis Chapman, Amy Grant, Cindy Morgan, Commissioned. Antes de fecharem meu caixão a última musica poderia ser Raindrops keep fallin on my head do B.J Thomas ou qualquer uma dos Carpenters. E se tem música tem que ter cantoria, as poucas pessoas podem cantar se assim quiserem. Músicas alegres de preferência ok?

Se algum pastor desejar perder seu tempo falando em meu velório, ok, sinta-se a vontade, embora eu ache meio esquisito, pode servir de conforto aos que estiverem lá (muito embora a minha própria morte já seja uma alivio e conforto para as pessoas) elas assim podem exercitar aquele lado social que eu deveria ter também e fazer uma carinha compungida e triste embora eu ache que os pensamentos estarão vagando bem longe... absortos em coisas realmente importantes como o que elas vão almoçar ou jantar após o enterro e se a bolsa já se recuperou ou continua em viés de baixa.

Depois que a última pá de terra tiver sido jogada sobre meu caixão, (veja até aqui imagino um enterro minimamente digno, não levando em conta a grande possibilidade de eu terminar meus dias como indigente e ser enterrado como tal) por favor, nada pra mim é mais deprimente e tacanho que aplaudir o defunto. Meu, enterro é espetáculo? Não né, então, por favor abstenham-se de prática tão tola.

Enfim, quando eu morrer, quero ser apenas um cadaver a ser enterrado o mais rapidamente possível, sem grandes firulas.

É isso.

Ouvindo: Steven Curtis Chapman

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