Um plantão qualquer

Naquele dia, ele chegou ao plantão sem muita vontade de representar o papel de corretor de imóveis. Desarmou seu espirito, reviu seus conceitos e decidiu que naquele dia, ao menos naquele dia a persona que ele criara para representa-lo ante os outros corretores desapareceria e daria lugar a pessoa que ele usualmente era e que via de regra é bem mais legal do que o corretor explosivo e criador de caso.

Percebeu que seria uma tarefa dificil, pois conceitos se enraizam de forma muito forte, e a imagem que muitas vezes se cria de de si mesmo se entranha mais forte que raiz de sequóia centenária no chão e um trabalho de reeducação desta imagem pode ser bem trabalhoso.

Analisou o local, analisou as pessoas que usualmente estavam ali com ele e se perguntou o que estava dando de bom para essas pessoas. O que pensam dele afinal? O que ele estava deixando como legado de sua pessoa? Existe a necessidade de deixar tal legado? Um plantão de vendas pode ser um local bem cruel, mas pode também ser um lugar agradável para se trabalhar, desde que cada envolvido no trabalho do dia resolva que vai ser agradável.

E ali, olhando ao redor, vendo as pessoas rindo, outras sérias e compenetradas ele percebeu que a questão era exatamente essa: Ser agradável, "be nice" pensou ele. Claro, continuaram existindo os corretores que tentarão o enganar e aos outros com suas atitudes desonestas existirão os incorporadores que não se importam o minimo que seja com o corretor existirão também as pessoas que são chatas e ponto final, mas sua percepção se abriu (sem aditivos quimicos) e ele percebeu que ser agradável é algo que ele deveria ser e poderia ser independente desses e outros percalços que surgissem pelo caminho.

Ficou evidente que a discrepância com a vida que ele tem aos Sábados que são sempre alegres, cercado de amigos e familia tem que ser reduzida. Sentiu um necessidade latente de ser melhor, de ser percebido como uma pessoa melhor, não porque esteja fazendo concessões, mas porque o seu natural é ser uma boa pessoa e sua persona sia a dia mata a real personalidade que nele há.

Ele sabe que não será fácil voltar a ser uma boa pessoa, mas sabe também que clichê dos clichês, toda caminhada começa com um primeiro passo e sua busca pela mudança, embora ardua pode ser recompensadora.

Ele, que na verdade sou eu, ao chegar em mais um plantão, um plantão qualquer, em um Domingo qualquer, decidiu ser livre e ser ele mesmo, por mais e por mais que pareça esquisito, foi uma das decisões mais dificeis que ele tomou nos últimos tempos.

É isso.

Ouvindo: Jars of Clay

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