Cora Coralina (a vovó que eu queria ter tido)

Eu admiro quem escreve bem isso é fato. É fácil falar, é muito simples dirigir um carro, é muito fácil (e prazeiroso) fazer sexo com qualidade, uma série de coisas enfim são infinitamente simples de serem executadas.

Agora pegue uma folha de papel (ou a tela do seu notebook) e tente transportar de forma inteligivel e sobretudo elegante o que vai pela sua cabeça. Traduza em palavras os seus pensamentos, diga ao mundo o que gostaria sem verbalizar, apenas escrevendo. Dificil, muito dificil.

Tem uma vovó que eu queria ter tido, ou melhor tinha, a Dona Cora Coralina. Seus poemas são a tradução de seus pensamentos de forma simples, elegante, sem firulas, mas absolutamente belos.

Ler Jorge Luis Borges requer concentração. Ler Saramago, é algo fluido, mas extenuante (embora o resultado final seja emerger dessa leitura uma pessoa melhor), ler Edgard Alan Poe te faz viajar pra um universo fantástico,Meu Destino. sedutor e misterioso, ler a vovó Cora, te faz sorrir.

A sofisticação ausente em seus textos é a principal qualidade que vejo ao ler suas poesias. O emocionante desfile de palavras simples e justas colocadas de formas sabia me faz querer ler mais e mais.

Exemplos:

Meu Destino.

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.

Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.

Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.

Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...

Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.

Esse dia foi marcado
com a pedra branca da cabeça de um peixe.

E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...


Lindo demais
Coração é terra que ninguém vê

Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Sachei, mondei - nada colhi.
Nasceram espinhos
e nos espinhos me feri.

Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Cavei, plantei.
Na terra ingrata
nada criei.

Semeador da Parábola...
Lancei a boa semente
a gestos largos...
Aves do céu levaram.
Espinhos do chão cobriram.
O resto se perdeu
na terra dura
da ingratidão

Coração é terra que ninguém vê
- diz o ditado.
Plantei, reguei, nada deu, não.
Terra de lagedo, de pedregulho,
- teu coração. Bati na porta de um coração.
Bati. Bati. Nada escutei.
Casa vazia. Porta fechada,
foi que encontrei...

Poderia colocar muitos outros mas creio que estes dois traduzem a beleza do verso de Cora Coralina, a vovó que eu queria ter tido pra mim.

É isso.

Ouvindo:4Him

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