O Sol escaldante já estava fazendo a cabeça doer as 8:30 da manhã. Isso porque a cabeça estava protegida pelo teto do plantão de vendas onde embora falte um ar condicionado, existe uma sombra permanente.
Acessando meus e-mails estou totalmente absorto em minhas coisas que nem percebo a figura parada em frente ao plantão. Um homem já na casa dos 40 e alguma coisa provavelmente. Sua voz me tira do torpor causado pela internet e nela escuto um pedido: "Pode me dar um copo com água?"
SER
Percebo que ele não entra dentro do plantão e com aquele Sol inclemente em cima do cucuruto aguarda. Não sei deixar as pessoas para o lado de fora e o convido para entrar e tomar a sua água e fico surpreso com a sua clara surpresa pelo convite. Ele toma sua água, agradece e vai embora, nada demais, nada que mereça registro, exceto que...
...Exceto que fico me perguntando o tempo todo para onde vai alguém que não tem rumo. Alguém que tem as roupas tão gastas e a dignidade tão corroída que não se sente em condições de entrar em um plantão de vendas, um lugar que recebe a todos sem distinção.
Fiquei observando a figura desaparecer na curva na estrada que leva ao Embu das Artes e agora fico aqui pensando se ele sabe que está indo para lá ou tanto faz. Que tipo de laços uma pessoa assim pode ter ainda se é que tem algum...
O que importa para alguém que não usa sapatos ou tênis, apenas uma Havaianas gasta dada certamente por alguém? Sem horário certo pra comer, talvez sem dia certo pra comer, bebendo a água que alguém lhe oferta pelo caminho, dormindo ao relento, tomando Sol na cabeça, tomando chuva, passando frio.
Será que teve família um dia? Será que teve um amor? Será que esse amor o desiludiu tanto ao ponto de fazer com que tudo acabasse e perdesse o sentido? Nesse estágio da vida ele ainda faz algum sentido? Ou apenas se liga o piloto automático e se sai andando sem rumo, tanto faz e for para o Embu das Artes ou para Saturno?
O mais engraçado é como essas pessoas podem ser invisíveis aos nossos olhos. Com quantos desvalidos cruzamos diariamente? Quantos deles chamam nossa atenção? A menos que se dirijam a nós apenas os ignoramos e se falam conosco via de regra fazemos cara de asco e tentamos despachar as pessoas.
Eu mesmo poderia te-lo convidado a se sentar, descansar um pouco, aliviar a tensão mas fiquei com medo de chegar alguém, algum cliente e simplesmente sentir repulsa pela figura e ir embora sem nem entrar.
Existe um abismo entre as boas intenções e a vida real. A tal "vida real" quase sempre atropela as boas intenções sem dó, sempre nos faz olhar o mundo mais cinicamente, sempre nos faz pesar as atitudes não pelas nossas virtudes ou vontades mas pelo que as pessoas veem de nossas vontades e como elas veem nossas virtudes.
O querer ser legal raramente se transforma em ser legal de fato porque as circunstâncias impedem a ação, e engessam a vontade.
De qualquer modo nesse momento talvez ele esteja pedindo um prato de comida para seu almoço e eu espero que consiga e também uma alma mais bacana que a minha que o tire mesmo que momentaniamente deste Sol inclemente.
É isso.
Ouvindo: Caminhante Noturno
Acessando meus e-mails estou totalmente absorto em minhas coisas que nem percebo a figura parada em frente ao plantão. Um homem já na casa dos 40 e alguma coisa provavelmente. Sua voz me tira do torpor causado pela internet e nela escuto um pedido: "Pode me dar um copo com água?"
SER
Percebo que ele não entra dentro do plantão e com aquele Sol inclemente em cima do cucuruto aguarda. Não sei deixar as pessoas para o lado de fora e o convido para entrar e tomar a sua água e fico surpreso com a sua clara surpresa pelo convite. Ele toma sua água, agradece e vai embora, nada demais, nada que mereça registro, exceto que...
...Exceto que fico me perguntando o tempo todo para onde vai alguém que não tem rumo. Alguém que tem as roupas tão gastas e a dignidade tão corroída que não se sente em condições de entrar em um plantão de vendas, um lugar que recebe a todos sem distinção.
Fiquei observando a figura desaparecer na curva na estrada que leva ao Embu das Artes e agora fico aqui pensando se ele sabe que está indo para lá ou tanto faz. Que tipo de laços uma pessoa assim pode ter ainda se é que tem algum...
O que importa para alguém que não usa sapatos ou tênis, apenas uma Havaianas gasta dada certamente por alguém? Sem horário certo pra comer, talvez sem dia certo pra comer, bebendo a água que alguém lhe oferta pelo caminho, dormindo ao relento, tomando Sol na cabeça, tomando chuva, passando frio.
Será que teve família um dia? Será que teve um amor? Será que esse amor o desiludiu tanto ao ponto de fazer com que tudo acabasse e perdesse o sentido? Nesse estágio da vida ele ainda faz algum sentido? Ou apenas se liga o piloto automático e se sai andando sem rumo, tanto faz e for para o Embu das Artes ou para Saturno?
O mais engraçado é como essas pessoas podem ser invisíveis aos nossos olhos. Com quantos desvalidos cruzamos diariamente? Quantos deles chamam nossa atenção? A menos que se dirijam a nós apenas os ignoramos e se falam conosco via de regra fazemos cara de asco e tentamos despachar as pessoas.
Eu mesmo poderia te-lo convidado a se sentar, descansar um pouco, aliviar a tensão mas fiquei com medo de chegar alguém, algum cliente e simplesmente sentir repulsa pela figura e ir embora sem nem entrar.
Existe um abismo entre as boas intenções e a vida real. A tal "vida real" quase sempre atropela as boas intenções sem dó, sempre nos faz olhar o mundo mais cinicamente, sempre nos faz pesar as atitudes não pelas nossas virtudes ou vontades mas pelo que as pessoas veem de nossas vontades e como elas veem nossas virtudes.
O querer ser legal raramente se transforma em ser legal de fato porque as circunstâncias impedem a ação, e engessam a vontade.
De qualquer modo nesse momento talvez ele esteja pedindo um prato de comida para seu almoço e eu espero que consiga e também uma alma mais bacana que a minha que o tire mesmo que momentaniamente deste Sol inclemente.
É isso.
Ouvindo: Caminhante Noturno
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