Não existe beleza na loucura
O nunca menos que muito bom programa de TV "A Liga", trouxe ontem a baila um tema sempre evitado ou tratado de forma equivocada na maioria das vezes: A loucura.
Não existe romance, beleza, virtude, magia, nada de positivo enfim, na loucura. Existe sim, dor, privação, medo, abandono, falta de amor e outros sentimentos bastante negativos. A loucura, ou os transtornos mentais te limitam, te degradam pouco a pouco e te isolam de qualquer convívio minimamente sadio com os outros.
Famílias isolam seus doentes em hospitais ou centros de convivência, esquecendo-se que ali estão pessoas que efetivamente fazem parte de suas histórias, que mesmo que por um breve período privaram da companhia dessa família, que precisam de afeto, de carinho, de cuidado, de um simples abraço que seja.
Débora Vilalba com seu registro sempre emocional mais uma vez colocou a nú a falta de carinho com que são tratados pelos familiares essas pessoas que não são "normais" como você que me lê, (jamais diria como eu e você, uma vez que de normal nada tenho), mas são antes de mais nada pessoas.
Durante a matéria viu-se nesgas de lucidez em alguns dos retratados, principalmente nas partes conduzidas por Lobão, quando a música trouxe momentos de tranquilidade e (outros de convulsão literalmente falando) as pessoas no hospital em que ele se encontrava. A música sempre vai te fazer bem que alguma forma, isso é um fato, tanto a loucos, quanto a sãos, a música liberta, renova, mas não é dela que estamos falando, então voltemos ao assunto.
Uma coisa que ficou muito clara é a falta de preparo dos profissionais retratados na matéria em lidas com esse tipo de paciente. Embora sem dúvida alguma exista uma boa vontade e mesmo um carinho por parte deles para com os doentes, percebe-se que não há um treinamento especifico para que esses profissionais tratem os esquizofrênicos (que são a maioria dos casos de forma adequada.
A terapia medicamentosa também é muito utilizada ainda em detrimento a outras que ou foram pouco focadas (tirante a musicoterapia), ou simplesmente inexistem. A loucura e seus padrões de comportamento repetidos ou sua total imprevisibilidade é um assunto sério demais para ficar fora do debate sobre saúde pública, pois obviamente ela é já há muito tempo um problema que precisa ser olhado com mais seriedade pelas autoridades.
Mesmo no terreno das boas intenções e ações, que buscam de alguma forma fazer algo que possa ajudar a dar um minimo de qualidade de vida a pessoas portadoras de transtornos mentais, percebe-se a ausência de parceria do poder público que poderia injetar mais dinheiro em lugares sérios como o Instituto Pequeno Cotolengo aqui de Cotia, minha cidade, que vive de doações, churrascos abertos a comunidade e outras formas de donativos sempre voluntários que permitem que essa entidade mantida por uma ordem Católica possa prestar atendimento de qualidade a pessoas portadoras de Paralisia Cerebral entre outras doenças limitantes.
Um momento especialmente comovente do programa de ontem foi quando Cazé (que parece finalmente ter se livrado da persona MTV que limitava seu talento) conversa com um portador de paralisia Cerebral que foi praticamente abandonado pela família e ressente-se de não conhecer a mulher e filho do irmão e não receber visitas da mãe. Cazé então lhe da a oportunidade de dizer em rede nacional algo para a família e ele humildemente pede apenas para sere visitado sem qualquer traço de rancor ou revolta aparente deixando surpreso tanto Cazé quanto a audiência.
Não existe beleza na loucura, mas pode sim haver acolhimento, afeto, cuidado para com os portadores de distúrbios mentais se pessoas como eu e você nos dispusermos a fazer algo mais do que assistir programas como "A Liga" e de fato ajudarmos da maneira que pudermos a quem precisa.
É isso.
Ouvindo: Débora Duarte
Comentários