Entre o Asfalto e a Respeitabilidade

Walter Salles não me decepcionou; entregou um grande filme. Delicado, esteticamente impecável e com um controle total do elenco — ver Steve Buscemi no papel de um velho libertino já vale o ingresso, e olha que é apenas uma ponta. Até Kristen Stewart se sai bem como a atormentada, porém doce, Marylou.

O filme não é fácil. Se você tem estômago sensível quanto aos caminhos tortuosos que um ser humano pode tomar, não assista. Vá ver Para Roma, com Amor, a nova bobagem europeia de Woody Allen — que há muito renunciou ao direito de fazer cinema prestável. Woody, aposente-se!

Mas mesmo em meio à turbulência — drogas, bebida, sexo desenfreado, vidas aparentemente sem destino —, há algo em Na Estrada que emociona: a amizade. Pode-se alegar que um amigo não abandona o outro febril, no meio do nada, no México. Mas pode-se também alegar que só um amigo de verdade se sujeita a certas degradações para conseguir os trocados que dividirá com o parceiro.

Nisso resume-se a força da obra. Dirigido sob a estética do cinema americano, para o público global e sem as concessões patéticas em que o cinema nacional costuma cair, o enfoque na amizade é o que realmente importa. É um afeto que resiste, ainda que nublado pelo uso excessivo de álcool, benzedrina, maconha e heroína; uma conexão real sob camadas de decadência humana.

Nunca acreditei em drogas. Tive curiosidade, e seria hipócrita se dissesse o contrário, mas nunca achei que elas abririam portas criativas ou sensações inalcançáveis de outra forma. Em suma, acho-as condenáveis e deploráveis, mas respeito quem as utiliza; cada um faz o que quer da própria vida. O filme deixa claro, nos momentos de "rebordosa", que elas simplesmente não valem a pena. O choro de Marylou, perto de chegar a São Francisco, enquanto alguém no carro entoa uma canção sentimentalista, escancara que a vida vazia proposta por esses personagens tem um preço alto demais.

Por outro lado, também não cabe um discurso moralista para enquadrá-los, pois, em um sentido, eu os invejo: não tenho o espírito livre e a coragem de viver exatamente como gostaria — dizendo o que penso, fazendo o que quero e me lixando para o julgamento alheio. Muitos dirão que esses freios são necessários à sociedade, mas a questão que o filme propõe, ainda que indiretamente, é exatamente essa:

De que vale viver sob tais ditames e ser uma pessoa pela metade? De que vale ter o espírito livre e não se enquadrar no que se espera de um "cidadão de respeito"? Quem somos nós? A soma de nossas experiências ou a raspagem delas para que reste apenas o que nos garante respeitabilidade? Vivemos para nós mesmos ou para agradar familiares, empregadores e o entorno? Usamos máscaras diariamente ou já nos domesticamos tanto que elas se tornaram parte definitiva do nosso rosto? Nosso sorriso de comercial de creme dental será assim para sempre porque "é assim que as coisas são"?

Walter Salles, com sua brilhante adaptação do clássico de Kerouac, mais do que suscitar perguntas pessoais, nos faz um favor: não nos dá as respostas. Você pode ver o filme como um burguês reacionário, como um quarentão vendo a juventude escorrer pelos dedos conforme a ampulheta derrama o tempo à nossa frente, ou pode tentar ser como o saxofonista que, nas palavras de Dean, conseguia "parar o tempo" com sua música e sua ânsia de fazer bem feito — como se não houvesse amanhã.

Na Estrada não vai agradar à maioria, pois expõe seres avessos a regras e verdades definitivas. Mas vai cativar aquela pequena fagulha que ainda existe em quem sente que gostaria de, ao menos um dia antes do fim, sentir-se realmente livre.

Dá vontade de pegar o carro, dirigir sem destino e parar apenas para abastecer e comprar mais Coca-Cola, já que não bebo. E veja a que ponto de domesticação cheguei: "pegar o carro". Fazer como Sal Paradise e encarar a estrada a pé, sem dinheiro no bolso, é algo que jamais farei por pura preguiça e acomodamento. Ainda assim, uma fagulha escondida aqui dentro às vezes grita: "Ei, você aí em cima, que clama por aceitação, vamos viajar..."

Agora, desligando meu notebook e me preparando para dormir, sem um porto sujo para olhar o mar ou qualquer outra inspiração lúgubre, eu só penso em Dean Moriarty. Eu só penso em Dean Moriarty...

É isso.

Ouvindo: O barulho chateante das teclas do meu notebook.



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