Eu só quero a calmaria de um lugar

Meu pai me odiou antes que eu nascesse tanto que me negou o mero e elementar direito de conhece-lo. Minha mãe só gostava da minha irmã que morreu de meningite depois de eu ter contraído a tal doença e sobrevivido (viram que eu sempre incomodo e faço a coisa errada né?), então talvez por estes motivos, talvez não, eu nunca me sinto a vontade em lugar algum. Não existe um lugar onde eu sinta que possa enfim pertencer. E o problema não são os lugares, sou eu. Qualquer lugar que não seja só comigo mesmo (patrulheiros, sei que só comigo mesmo é redundância mas e dai?) eu consigo facilmente gostar das pessoas mas não permito que elas gostem de mim. Sempre vou sabotar qualquer sentimento positivo que alguém possa sentir por mim, vou sempre dar um jeito de lembrar a essa pessoa que sou alguém que foi abandonado quando criança a própria sorte. Eu sempre vou gritar com alguém, ofender alguém, ser irônico, ácido, maldoso, e vou sentir um prazer doentio nesse comportamento, porque ninguém pode gostar de mim, sempre vai ter algo errado com isso. Quanto a pertencer a algum lugar ou a uma pessoa, é pior ainda. Sou como Groucho Marx que disse certa feita que pediria expulsão de qualquer clube que o aceitasse como sócio. Vou a igreja e sei que Deus está lá. Mas as pessoas também estão e isso faz com que a igreja seja um núcleo social como qualquer outro a grosso modo e o medo de me relacionar com quem está lá é horrível e paralisante. Eu na verdade só queria mesmo poder correr pra algum canto em que me sentisse acolhido, amado e que deixasse esse sentimento dolorido para trás. Sei que daqui a cinco minutos vou esquecer tudo isso que escrevi pois minhas defesas contra a dor estarão reposicionadas e operantes, mas nesse momento eu preciso colocar isso pra fora, preciso gritar que eu só quero a calmaria de um lugar seja qual for este lugar. Por que não sentir o amor correndo pelos poros? Por que não aceitar que alguém pode verdadeiramente gostar de mim? Por que me sentir tão inadequado? Na verdade mais que sentimento é uma certeza absoluta essa da inadequação. Mas e dai também? A vida vai seguir, porque ela sempre segue e afinal ao menos eu posso ter uma esperança, a esperança que um dia meus pecados serão perdoados e eu vou viver no céu, com Deus e finalmente terei o meu lugar, terei me achado, me tornado adequado a alguém e numa latitude e longitude nunca antes imaginada eu finalmente poderei chamar alguém de Pai e será a mais pura verdade... É isso Ouvindo: Sublime, de Leonardo Gonçalves, a música que mais tem dialogado comigo ultimamente e me dito coisas bem bacanas pra falar a verdade.

Comentários

Anônimo disse…
Ah!... muito triste....força...

Postagens mais visitadas