A beira da Estrada
A verdade é que a gente vê sempre o que a gente quer ver e só isso. A verdade pode se jogar na sua frente, mas se você não quer ve-la, esquece, ela vai passar batido.
Ontem a noite, voltando de uma programação da Débora em Mogi Guaçu, paramos em uma churrascaria, primeiramente para irmos ao banheiro e comprar água apenas, mas foi só olhar as cadeiras, o buffet, e decidimos comer.
Tinha uma família, mãe e duas filhas, sentadas em um dos bancos, uma mãe relativamente jovem e suas duas filhinhas com cara de Bolivianas, mas pode ser só impressão minha. Elas estavam com fome, claramente com fome. Não falavam uma palavra. Apenas estavam com fome. Visivelmente com fome, com uma fome tão clara e tão certa que eu fui ao banheiro e depois fui olhar os coelhinhos (reais) que estavam a minha volta para serem vendidos.
Ninguém os via. Carros paravam, pessoas entravam, mas se recusavam a ver. Ver uma pessoa com fome, ainda mais co sua prole, significa obviamente ajuda-la, a menos que você seja tão mal caráter que não se preocupe com necessidades básicas de um semelhante seu.
E dai, pra não ver a verdade, você vai ver coelhinhos, olha as bugigangas que todas essas churrascarias vendem, senta com os seus queridos, conta piadas, coloca uma trilha sonora particular pra tocar em sua mente, faz qualquer coisa pra esquecer que enquanto você se farta pessoas estão com fome.
É engraçado esse lance que eu tenho com a fome, porque nunca passei fome, embora já tenha passado quando criança vontade de comer algumas coisas que não dava pra ter naquele momento, mas hoje, agora pra ser sincero aquelas figuram vieram a minha mente. Por que eu não as ajudei? O que me custaria comprar comida para uma mulher e duas crianças que nem força pra pedir tinham?
Me parece evidente que se pessoas com fome se sentam na frente de um restaurante é porque esperam que alguém se compadeça. Eu fico dizendo que sou Cristão, que sigo os mandamentos de Deus e não ajudei aquelas pessoas? Que conversa é essa?
Quem sou eu afinal? O que eu quero da minha vida? Fácil pensar que eu sou legal, fácil ter uma boa imagem de mim mesmo, mas esse meu imobilismo me mostra o nada que eu sou. Pessoas com fome e eu quieto? Se eu não pudesse ajudar, vai lá, mas eu podia. E se não pudesse, poderia ter dado a minha comida já que em casa o que mais tem é comida pra mim.
Eu me entristeço com quem eu sou. com quem eu gostaria de ser eu fico bem feliz, mas com quem eu sou efetivamente... Pessoas a beira de uma estrada, escura, será que elas teriam um teto? Espero que alguém tenha tido o coração bom que eu não tive e teha ajudado aquelas pessoas.
É isso.
Ouvindo: Leonardo Gonçalves
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