Eu me tornei um almofadinha de 39 anos
Fazem dois meses que não sei o que é sair de casa sem gel no cabelo. Não pra deixar ele bagunçado, mas meticulosamente alinhado. Eu me deixei engordar. Eu gosto de passear pelos corredores do Shopping Granja Viana e quase tudo que compro, compro lá. Eu me tornei um almofadinha e tenho vergonha de mim mesmo.
Não tenho mais forças pra contestar nada. Falo que morasse em SP votaria na Soninha, mas votaria mesmo é no Serra. A cada dia mais me insiro numa sociedade que sempre odiei pela apatia, pela falta de perspectivas, por ser consumista demais e por nivelar todos os seus participantes por baixo.
Uma coisa que tem me angustiado demais é que vou tirar meu Creci definitivo. Dez anos empurrando este momento horrível onde serei definitivamente inserido no meio de pessoas sem a menor condição de trocar três palavras que seja, que se orgulham por participar de uma entidade de classe que suga seus membros sem nada por eles fazer, que toma seu dinheiro que lhes obriga a votar em pessoas que nem se conhece e sabe-se o que pensam.
Em vez de dar um basta e procurar outra ocupação, de ser fiel aos meus pensamentos primários eu vou passar por cima de tudo isso e vou me filiar de forma definitiva a isso tudo. Corro atras de dinheiro com uma velocidade assustadora, passo por cima de quem sou realmente para consegui-lo, anseio sempre ser o melhor vendedor nunca a melhor pessoa.
Olhos as pessoas que me cercam em plantões de vendas e me sinto completamente fora de foco, como se a paisagem em que estou inserido fosse uma grande Matrix que eu voluntariamente me coloquei e não sei como sair. Sou, de fato, um almofadinha que não contesta, não pensa e se deixa guiar bovinamente por necessidades que não correspondem com meus anseios reais.
A vida vai sendo levada assim, modorrenta, com gel no cabelo, andando por corredores de shoppings, sendo confundido com um feliz habitante de uma classe média que merece o nome que tem pela mediocridade de seus valores, e sobre tudo de suas aspirações.
Claro que desde cedo aprendi que não mudaria o mundo, mas não consigo mudar nem meu condomínio, não consigo verdadeiramente dizer o que penso e isso fica remoendo minhas entranhas, me fazendo cada dia mais cheio de um vazio que beira o insuportável.
Claro que minha vida não é um fracasso completo. Sou feliz em muitos momentos dela quando ainda consigo me reconhecer como a pessoa que sempre quis ser e sempre tentei ser. Quando ainda consigo ser generoso e bom, quando faço para outros sem esperar que façam para mim, quando busco a realização do outro.
Ainda existe uma nesga de esperança para este almofadinha gordo com gel no cabelo e vestido em ridículas calças sociais e sapatos pretos. Ao menos eu quero achar que existe.
É isso.
Ouvindo Elvis Presley
Comentários