Talvez eu deixe de ser Cristão
Tenho me questionado a muito tempo sobre se devo continuar me considerar um Cristão. Não pela forma que vivo, afinal sou tão pecador como qualquer outro cristão que conheço a questão nem de longe é essa, mas sim nos conceitos fundamentais em que acredito para a minha vida.
Ok, sou criacionista. Isso é fato. Mas por que? Porque eu cresci ouvindo meus avós dizendo que deveríamos ser? Não. Sou criacionista porque realmente eu acredito em um Deus que criou o mundo de forma inteligente e da melhor maneira que se podia criar. Logo, não é esse o ponto que me atormenta. Mas existem pontos que me atormentam, e muito e talvez me impeçam de continuar professando a fé cristã.
Antes de enumera-los, deixo claro que não se trata de olhar o erro do outro e não o meu ou de querer que todo mundo seja perfeito pra ser cristão, nada disso, trata-se apenas de reflexões minhas, de idéias que me atormentam o pensar por mim mesmo, não porque eu tenha olhado para o lado e visto pessoas fazendo ou não fazendo isto ou aquilo ou se comportando de forma indigna. Pra ver pessoas assim bastaria eu me olhar no espelho.
Vamos lá ponto número 1: Sou a favor do aborto. Sim, sou a favor do aborto não como política de controle da natalidade, mas o que acontece é que milhões de abortos ocorrem todos os anos no Brasil. Quem tem dinheiro, paga uma clínica boa com médicos que sabem o que estão fazendo e sai dali pronta para ter outro filho em um momento oportuno. Quem não tem, (a grande maioria) simplesmente se arrisca a morrer na mão de açougueiros despreparados que se não matarem a mulher podem aleija-la ou dai pra pior. Não existe política de saúde pública eficaz no que diz respeito a distribuição de pilulas anticoncepcionais ou preservativos e muito menos se explica (o que sim é necessário) como utiliza-los corretamente quando estão disponíveis.
Nós cristãos por outro lado temos um discurso pronto e curtinho: Não faça sexo e não haverá necessidade de aborto. Beleza. Ms não conseguimos evitar nem dentro de nossos muros que os adolescentes façam sexo cada vez mais cedo, quanto mais exportar esse discurso para a população em geral? Simplesmente não funciona. Mulheres sofrem violências mil dentro e fora das igrejas, tendo filhos que não vão amar, não estão pronta para ter e simplesmente os tem porque é assim e acabou. Sem abertura para discussões. Então dentro outros vários motivos além desses poucos sou sim a favor do aborto o que já me faz ser um cristão de merda.
Ponto número 2: Sou a favor de se respeitar e receber de forma digna os homossexuais dentro de nossas igrejas. O que acontece é o velho e patético discurso de que amamos os homossexuais mas abominamos sua prática. Não temos autoridade para abominar nada nem a ninguém. Se homossexuais querem frequentar uma igreja, seja ela qual for, que frequentem, sem aquele olhar desprezível que recebem ou que tentem a cada cinco minutos "concerta-los". Gosto da prática homossexual? Não. Mas isso é meu gosto e minha conduta. Deveríamos nós cristãos sermos os primeiros a sermos tolerantes com os homossexuais, não picha-los e tentar coloca-los em guetos e ainda por cima querermos ser superiores a eles porque somos "normais". A igreja não sabe, e não quer aprender a lidar com os homossexuais então vai empurrando-os para baixo do tapete sistematicamente.
Ponto número 3: Como nos tratamos. Não sei se quero mais participar de um grupo de pessoas que prega uma coisa e faz outra. Cristão fazem isso o tempo todo, todo o tempo. Gandhi, (que não foi o santinho que tentam vender nem de longe) tem uma frase lapidar sobre os cristãos: "Eu seguiria a doutrina de Cristo se não fossem seus seguidores". Ele estava certo. Somos intolerantes, hipócritas, o tempo todo tentando impor nossos conceitos, nossas doutrinas como se fossem as únicas que existem. Esquecemos que as pessoas podem crer no que quiser sem serem molestadas por este motivo.
Queremos liberdade de culto desde que seja para nós cristãos. Não queremos nem ouvir falar em nada que nos proíba de nos expressar, mas queremos calar toda e qualquer corrente que seja contraria ao nosso pensamento. Vivemos esse paradoxo como se fosse algo natural e aceitável quando não é. Cremos em um Deus piedoso, justo e bom e pregamos suas virtudes, mas agimos na maioria das vezes como tiranos tentando impor goela abaixo dos outros nossas crenças esquecendo que o homem foi feito livre por este mesmo Deus. Livre para pensar, para decidir, inclusive decidir não acreditar e seguir o Deus que o criou. Temos a tendência de achar que quem pensa diferente de nós está contra nós. Há algo mais falso que este tipo de pensamento?
São três os pontos que enumerei e teria mais alguns mas tornaria este texto mais chato do que já está e acredito serem também suficientes para me fazer entender. Sim, cresci em um lar cristão, amo o evangelho de Cristo Jesus, mas penso tão diferente das pessoas que professam a mesma crença que eu tenho que me pergunto se o problema não sou eu e minha leitura errada do que é ser enfim, um cristão.
Sinto que as vezes minhas palavras, meu comportamento deixe em dúvida para pessoas não cristãs se é assim que um seguidor de Cristo deveria pensar então talvez eu deixe de professar a fé cristã ao menos de dizer que a professo. Não por vergonha do evangelho, mas de mim mesmo.
É isso.
Ouvindo: Madredeus
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