Um dia em Curitiba


Se você não quer ler algo absolutamente pessoal, Pare por aqui. Ontem tive que passar o meu dia em Curitiba. Posso dizer que foi sem dúvida um dos piores dias de minha vida. Não sei até agora porque me senti como me senti, mas foi Punk, pra dizer o mínimo.

Adoro viajar. Amo mesmo. Mas não sozinho. Me sinto perdido, inadequado mas do que já sou quando ando sozinho por uma cidade que não é a minha. Assim que desci, me senti mal. Um monte de gente linda a minha volta e eu feinho de dar dó, estragando o cenário. Esse pessoal do Sul é muito belo e se veste muito bem e eu totalmente informal e num frio de dar dó com um cardiganzinho que não esquenta nada. Devo ter parecido um ET.

Pedi uma informação e fui ignorado.Pedi a mesma informação para outra pessoa e com muito custo consegui recebe-la, mas como se fosse um favor fora do normal. Não me ocorreu que pessoas mal educadas existem em todo lugar, preferi naquele momento achar que a culpa era minha por algum motivo.

Ao andar pela cidade, tive medo. É, medo. Tive medo que gritassem comigo se precisasse novamente de outra informação, o que me fez perambular pelo centro da cidade a esmo por quase uma hora até achar o local que eu queria chegar, no caso o Shopping Mueller. Tive medo que rissem da minha blusa fininha, mas como eu ia adivinhar que estava tão frio lá? Tive medo que perguntassem como eu consigo ser tão feio e ainda sim não colocar um saco  de papelão na cabeça com dois furinhos nos olhos pra não sair tropeçando nos outros.

Tive medo de que ao me olhar as pessoas vissem o quanto eu sou inseguro e incerto sobre quem eu sou e pra onde eu vou. Tive medo de ser desnudado apenas por não poder sorrir (quem tem entendimento, entenda), tive medo de entrar em um restaurante pra comer o que queria porque todos estavam em casais e eu sozinho ia passar uma imagem  de total perdedor que come sozinho.

Quando entrei no shopping e vi todos aqueles loiros e loiras lindos, com seus smartphones colados ao ouvido falando de forma tão segura e ao invés de andar, desfilando, tive vontade de sair correndo dali, mas era ali que encontraria quem resolveria meu problema, então tive que esperar. Me escondi dentro de uma livraria, mas não conseguia me concentrar na leitura de nenhum livro, pois tive medo de ser tomado por um oportunista que lê livros de forma gratuita por não poder compra-los e  me vi dentro de meu habitat natural sem poder folhear os livros que tanto amo. Me escondi no banheiro, mas dai me veio uma vontade assustadora de usa-lo de forma efetiva, e me segurei, pois não quis correr o risco de ser espancado por contaminar um banheiro tão lindo com meus odores desagradáveis.

Eu tive pavor de encarar outras pessoas, pois me sobreveio um sentimento de indignidade tão grande, que não sabia para onde correr. Não sei porque me senti assim. Me senti burro, me senti um verdadeiro motivo de chacota e achei que as pessoas estavam prontas para gargalhar de mim apenas pelo motivo de eu existir.

Engraçado que mesmo com uma blusa totalmente inapropriada para o frio que fazia, eu não consegui sentir frio, apenas a sensação que me sufocava a cada passo e o desejo intermitente de ir embora e nunca mais voltar ali.

Eu tive um dia horrível ontem. Um dia em que eu quis chorar, um dia que ao olhar no espelho eu me vi sem máscaras, sem nenhuma nuance que me absolvesse da pessoa que realmente sou. Ao me ver, eu percebi que talvez as pessoas ali estivessem me vendo da mesma forma, e meu pavor me fez correr para dentro do bus assim que minha questão foi resolvida.

Sempre fui um adolescente feinho e sem graça, e me tornei um adulto feinho e sem graça. Mas ao andar sozinho pelas ruas de Curitiba, o adolescente voltou e me dominou e me fez ter medo de encarar o mundo adulto e me fez ver que não estou nem perto do que eu penso ser.

Quando entrei no bus, para voltar  pude novamente respirar e quando meu celular apontou o código (011) eu percebi que junto com ele minha sanidade havia voltado. Quando criança minha mãe sempre me dizia para não conversar com estranhos, ontem. aos 40 anos, eles me apavoraram.

É isso.

Ouvindo: Trio Adventhus



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