Um novo sonho com minha irmã que morreu
Ontem, dia das mães, uma das datas em que invejo as pessoas que tem mães que as amam ( praticamente todas menos eu), sonhei novamente com minha irmã Fernanda que morreu de meningite logo após eu ter tido a mesma doença e o azar de ter sobrevivido.
Recorrentemente sonho com ela. Acho, não sei, que sou eu mesmo me dizendo coisas que eu não ouso dizer para mim mesmo quando estou acordado, afinal são os únicos sonhos que eu me lembro. Não que eu faça questão de lembrar com o que sonho, mas no caso destes sonhos é sempre intrigante eu me lembrar.
Foi um Domingo deprimente para mim embora eu sempre disfarce bem, mas quando eu vejo as pessoas presenteando suas mães, ganhando abraços, afagos, palavras de carinho, distribuindo afetos, eu corro para o banheiro e me abraço bem apertado. Loucura né? Mas eu faço isso porque minha mãe nunca me amou e nunca me amará, e de toda a minha família a única pessoa que um dia tenho certeza que me amou foi minha irmã, mas dentro de panorama de total ironia ela se foi antes que pudesse expressar com palavras concretas que me tirassem da dúvida.
Entendo perfeitamente o fato de as pessoas não gostarem muito de mim, ou não gostarem nada, porque se é verdade que uma mãe conhece um filho melhor que qualquer outra pessoa, a minha deve saber bem os motivos para não gostar de mim. Em todo caso, minha irmã me disse que eu deveria ser menos encanado, que sim, ela sempre me amou e quando brincavamos e ela sorria com aqueles olhões azuis e cabeleira loira balançando ao sabor do vento ela estava sendo sincera, estava de fato se divertindo e trocando amor comigo. Ela me disse ainda que se fosse viva, estaria ao meu lado nos momentos tristes da minha vida e seriamos unidos como só duas pessoas que se amam de verdade podem ser e eu não teria qu eme proteger tanto das pessoas porque ela ajudaria me defendendo também.
É engraçado sentir tanta falta de alguém com que se conviveu por pouco menos de dois anos mas a risada dela ecoa na minha cabeça de forma tão clara e forte, que eu quase posso tocar o rostinho lindo dela com aquelas bochechas rosadas de pura satisfação. Eu nunca, nunca vou conseguir entender porque eu que já tinha vivido ao menos 9 anos tive a chance de viver e continuar a viver até hoje e ela, que tão claramente seria muito mais do que eu sou e jamais serei, teve que perecer tão nova e tão rapidamente.
Por mais que eu saiba que existia uma epidemia de Meningite e racionalmente falando eu saiba que não existe culpa em um garotinho de 9 anos em ter contraído tal doença e jamais seria intenção do garotinho passa-la a irmã, eu não me conformo de estar sempre no lugar errado, na hora errada.
Quando lembro de minha mãe recebendo a noticia da morte da Fê, e seu rosto olhando para mim, me fuzilando de raiva, eu me lembro também que em minha mente na hora se clareou o pensamento dela " a culpa foi sua" e essa expressão petrificada de raiva contra mim não saiu mais da minha retina.
Minha irmã sempre me diz coisas boas nos meus sonhos e eu imagino que se fosse viva também me diria coisas agradáveis mesmo que eu estivesse fazendo algo errado. Imagino que ela seria paciente comigo, que entenderia minhas limitações, entenderia meus medos, que eu não consigo escrever com letra bonita, que eu não sei dizer tudo o que eu penso falando, só escrevendo, que eu não tenho beleza física mas até posso ser legal se bem conduzido, sei lá... Acho que ao menos ela disfarçaria se ficasse de saco cheio de mim em algum momento.
Ontem, dia das mães eu estava trabalhando, correndo com clientes, tentando ganhar o pão, mas era como um quadro de filme de cinema em que tudo está colorido exceto a visão do personagem que além de estar em preto e branco está fora do tempo e espaço dos demais personagens. A tristeza de não ser amado por quem deveria ser a única pessoa a me amar mesmo contra todas as probabilidades é algo que me corta. Mas tenho a sorte de ter uma irmã que é tão especial, mas tão especial, que vem me visitar em sonhos, me confortar a vida triste e sempre nas horas em que mais preciso.
Claro que não acredito em espíritos vindo do além para falar com os vivos, longe disso, não sou idiota, mas a imagem que tinha da minha Fê e o amor que ainda sinto por ela é tão intenso, tão forte que me faz dizer para mim mesmo coisas que eu as vezes preciso ouvir pra não explodir e a forma que minha mente escolheu pra isso é usar a imagem de minha irmã.
Já posso prosseguir por mais algum tempo com o coração menos apertado.
É isso.
Ouvindo: Cícero
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