Os invisíveis
Tudo que não nos toca é de alguma forma invisível. Tudo o que deixamos passar, tudo o que não damos prioridade, tudo o que não desperta compaixão, amor ou até mesmo raiva e rancor, é indiferente, e a indiferença leva a invisibilidade.
Me relaciono muito mal com bolas, árvores, guirlandas e todas as outras coisas relacionadas com o Natal. Papai Noel, velhinho batuta, só entra em casas com chaminé. Casas com chaminé, no Brasil, só em lugares especificamente destinados aos que moram muito bem e são cafonas ao ponto de ter uma lareira em país tropical. Papai Noel não está nem ai para bom gosto, quer presentear os ricos, os pobres, são invisíveis.
Noel está nos shoppings, colocando crianças bem nutridas e bem nascidas no colo, dando presentes, tocando músicas(?) irritantes o dia inteiro, para atrair pais e mães que se acostumaram a fazer tudo o que seus filhos querem a tirar fotos e mais fotos com um ser que nem existe de qualquer forma e fica suando embaixo daquelas roupas vermelhas e desnecessárias.
Noel está nos shoppings como eu disse, mas os invisíveis, as crianças que ele deveria assistir estão nos faróis. Noel passa por elas apressados, acho que se pudesse atropelaria umas duas ou três a cada arrancada, porque pertinhos feios, sujos e desnutridos não combinam com a paisagem Européia que nosso país ganha de forma absolutamente irracional nesta época do ano.
Moema, bairro chique, que tive o desprazer de morar por três anos e conviver com uma galera metida a besta e boçal, tem até uma rua, a Rua Normandia (olha se o nome não é uma peróla da imbecilidade por si só!!!) em que a associação dos comerciantes do bairro faz até NEVAR em Dezembro. É. NEVAR. Sim, as temperaturas médias ali são superires aos 25 graus em Dezembro, mas mesmo assim, na Rua Normandia, neva. E os tolos paulistanos que ali afluem seja para tirar fotos, seja para fazer compras se deliciam, extasiados com a neve artificial e a imbecilidade mais que real que perdura por todo o mês.
Mas detalhe importante: Os invisíveis, não estão ali. Moema tem seus mendingos é claro. Era amigo de dois deles que dormiam na minha rua, a Rouxinol, mas na Normandia, em Dezembro, são proibidos, ou antes, desaconselhados de aparecer. Um batalhão de seguranças particulares se encarrega de fazer a "higienização" do perimetro, garantindo que milionários otários façam suas compras com se estivessem em um pedacinho da Europa e depois senten-se refestelados, nos bistros próximos para comer um Petit Gateau, tomar uma taça de prosseco com seus pares gualmente otários, bem nascidos e mau pensantes e planejar a próxima viagem de férias.
Tenho vergonha alheia do comportamento destas pessoas que simplesmente ignoram a massa de invisíveis que gravita a sua volta, querendo não neve mas comida. São solenemente ignorados, desprezados e quando alguma desmiolada rica e metida a besta resolve fazer algo, faz como pude presenciar ali uma vez fazendo compras com a minha namorada da epóca que não abria mão de tanto morar ali quanto comprar ali para meu desgosto: Vai a loja das Havaianas, compra várias delas e distribui aos pobrezinhos... Só pode ser retardada né nega? Havaianas pra quem precisa de comida? Vontade de pegar as Havaianas e enfiar goela a dentro da maluquete, mas nem um tratamento de choque desses iria resolver uma questãi interna da pessoa: Não entender que o espirito do Natal, se é que existe algum espirito do Natal, é ajudar de forma efetiva a quem precisa, não presentiar a quem já tem muito mais do que pode consumir.
Os invisíveis estão por ai mais uma vez este ano. Esperando que nossos olhos como que por mágica se abram para ve-los e assim ajuda-los ao invés de nos fecharmos em nossa solene indiferença. Mais uma vez temos a oportunidade de fazer diferente, de fazermos melhor, de sermos melhores do que temos sido.
Depende apenas da vontade de cada um para que este ano os invisíveis sejam visto e atendidos em suas necessidades.
É isso.
Ouvindo: "A Mirangem" de Jay Vaquer
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