Rolezinhos e a ditadura dos ricos



Eu sempre fui pobre. Sou da ZL. Com orgulho. Sou da Penha. Nasci na verdade em Guarulhos mas me criei na Penha, no Cangaiba, pra ser bem especifico, no Pira, atrás da linha do trem, vendo a Rod. Dos Trabalhadores (atual Ayrton Senna) ser construida. Enfim, sempre fui da periferia e ter morado alguns bons anos da minha vida em Moema, Campo Belo e posteriormente Vila Olimpia não muda isso. Sou da periferia. Compro na Besni, não na Daslu.

Na minha época programa bacana era ir no Grupo Sérgio comer esfiha. Tenho a impressão que eles que implantaram o conceito da esfiha aberta, ao menos para mim, foi, pois só conhecia a tal fechada. Não existia celular, redes sociais,  e era um privilégio ter um telefone fixo em sua casa. Mas  a gente dava nossos pulos e se divertia e eu pra ser bem sincero sempre me diverti beijando. Desde os 13 anos minha diversão era beijar. Eu era bem bonito com 13 anos, um menino que beijava meninas de 18 pra cima e nunca fui de ficar demais em uma turma.

Mas desde de minha época, reconheço a necessidade que os jovens periféricos como eu tem de estar em turma. Isso nos afirmava, protegia, dava uma sensação de identidade e até hoje, é assim. Em turma somos mais legais, mais esperto e sim, sem sombra de dúvida, mais valentes e ousados.

Todo esse preâmbulo meio inútil até para  falar dos tais Rolezinhos. Um movimento que começou não se sabe muito bem onde e nem porque mas ganhou força a ponto de a esquerda festiva e corrupta de nosso país tentar tomar pra si e a direita enfurecida retrógrada e facista querer ver bem longe de preferencia lá no Pira, atrás da linha do trêm beirando a Ayrton Sena.

Não vou falar da falta de lazer dos jovens. Besteira isso. Só jornalista metido a besta acha que os moleques e as minas da periferia não dão seus pulos pra se divertir. Sempre demos em minha época e esses e outros que virão sempre darão. Esse movimento não se trata de lazer. É na verdade uma forma de gritar ao mundo que a periferia existe, que pessoas respiram por lá também, amam, fazem sexo, usam drogas, trabalham, exatamente como nos Jardins, em Moema e no Campo Belo.

Politizar este movimento é se mostrar razo e imbecil. Querer torna-lo problema de segurança pública é ser ignóbil, vil e acima de tudo preconceituoso e arrogante. Coisa de gente rica ou que gostaria muito de ser. Existe um número máximo de pessoas que podem entrar em um shopping? Foi notificada alguma ocorrência policial causada pela galera dos Rolezinhos? Eles mataram? Roubaram? Furtaram? Ser pobre te exclui de andar em turma? Ou a turma tem que ser de no áximo 10, 15, sei lá pra não causar medo? Eu passo sempre em frente ao Shopping JK. Nunca entrei. Não pretendo. Lá não tem Besni. Não tem mundial calçados, não tem Habibs e muito menos grupo Sérgio que já faliu. Então, não tenho o que fazer lá.

Agora se essa galera das franjas da cidade quer entrar, a policia deveria se mobilizar para garantir que eles entrem e não o contrário. O aparato Júridico/policial do Estado trabalha para o povo, para garantir seus direitos, não trabalha para alguns riquinhos metidos a besta e não é pago com nossos impostos para fazer a segurança de seus estabelecimentos comerciais.

O que me espanta são os seguranças deste lugar todos eles moradores dos mesmo bairros que a galera dos Rolezinhos e querendo ser mais realistas que o Rei ao tentar enxota-los. Me espanta ainda mais a população ser tão apática e não se reunir e promover um boicote a esses lojistas de merda e suas lojas todas empoladas.

Garanto para você que está lendo que não existe nesses shoppings sejam lojistas ou administradores 10 pessoas que tenham a bagagem cultural que eu tenho e que muita gente da periferia tem porque as vezes o que nos resta é ler e se preparar para a vida. Se falar sobre os clássicos seja da liteeratura ou do cinema, ou da música farão cara de paisagem e dirão algo sobre a nova coleção de Balenciaga ou Tom Ford.

Se eu pudesse falar algo a essa galera dos Rolezinhos eu diria para não irem a esses shoppings.  Mas não porque eles não sejam merecedores de frequenta-los, mas porque um motivo simples. Lá não tem Besni. Nem Mundial Calçados e nem dá pra traçar um beirute do Habibs.

É isso.

Ouvindo: Frank Zappa

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