Música com "M" Maiúsculo
Quando eu era criança ou mesmo adolescente era muito fácil identificar um artista farsante de um realmente talentoso. Primeiro porque não existiam recursos a farta como hoje para mascarar uma voz ruim e segundo porque produtores consagrados não atrelavam seu nome a porcarias. Hoje, em troca de uns caraminguás, assinam produções de merda e ainda tentam fazer o público acreditar que realmente a pessoa tem talento. Lamentável.
Acontece que não condeno de forma alguma quem tem um sonho de fazer ou neste caso, cometer um CD porque afinal muitas vezes a pessoa nem é motivada pela vaidade e sim por motivos que fogem a compreensão de que qualquer outra pessoa que não ela mesma e em alguns poucos casos o "artista" acha que vai de fato contribuir para uma sociedade melhor colocando sua voz a disposição da humanidade para ser ouvida tendo assim suas mensagens absorvidas.
Mas vamos ser claros: Música, a sério, é algo para poucos. Muito poucos. Não adianta o quanto um produtor talentoso possa fazer para encobrir a falta de talento de seu pupilo, ele sempre será alguém sem talento. Não importa o quão esforçado, quanta aula de canto a pessoa faça, o quanto os amigos puxem o seu saco, o quanto (e essa é a parte mais engraçada) o engenheiro de som diga lá dentro do aquário "vamos fazer a boa agora!" nunca, nunca haverá boa para quem não tem talento. O fato é esse, aceite-se ou não.
Nem vou citar aqui os pagodeiros ou sertanejos, simplesmente não vale a pena. Mas a proliferação de gravações ditas 'independentes" é o que me assusta, e em especial no meio evangélico. Este é o ponto fulcral deste post, porque de uma hora para outra, com a facilitação da tecnologia e o barateamento das horas de estúdio além da luta desenfreada de "produtores" ou pessoas que dizem ser, todo mundo acaba achando que tem "algo" a dizer e este "algo" não pode ficar escondido, afinal, a pessoa crê piamente que recebeu um chamado. E chamados, ainda mais divinos, não se recusam.
Tudo isso acaba tendo a consequência nefasta de vulgarizar o cenário da música cristã. As grandes gravadoras também lançam cantores sem o menor preparo é bem verdade, mas como tem um budget pré definido, não apostam todo o dinheiro delas só em coisas ruins, e mesmo quando atuam apenas como distribuidoras, não se associam ao que há de pior, tem um filtro, uma barra, que é bem verdade vem sendo rebaixada ano a ano. Uma pena.
Não discuto aqui intenções. Se é vaidade, que em muitos casos fica claro ser, ou qual seja o outro motivo. Existem pessoas de coração bom e quando falamos de música Cristã tudo tem que ser visto com outra lupa, muito mais potente, que veja detalhes pois se não qualquer analise descamba para a maldade pura e simples.
Fato é que a questão é séria pois se trata de um rebaixamento claro da qualidade do que se é oferecido. E o ponto mais importante para mim é a cobrança deste tipo de material. Eu tenho uma ideia meio radical que reza a seguinte linha: Quer gravar um trabalho musical e não tem competência pra tanto? Quer ser produzido(a) sabendo que vai ser todo(a) reconstruído por programas de afinação? Ok. Então, querido(a) DOA o seu trabalho. Mas um componente intangível impede que uma ideia dessa seja levada a termo. E aqui, vamos ser absolutamente sinceros. Absolutamente. Até porque já produzi dois álbuns e não falo de bobo e sim conhecimento de causa. A real é que a quantidade de pessoas dispostas a PAGAR. O que delimita, em parâmetros humanos o sucesso de um trabalho ou não é exatamente isso. As pessoas dispostas a pagar por um trabalho para te-lo para si. Baixar pela internet de forma ilegal, copiar de forma ilegal de um cd para outro, tudo isso é fácil. Mas ninguém baixa de forma ilegal ou pirateia um trabalho que não tenha sido um sucesso. E com a facilidade de hoje em dia em se obter streaming legal faixa a faixa, as pessoas estão aos poucos mas de forma consistente migrando para a legalidade.
Então, "cometer" um cd e doa-lo é como uma confissão de incompetência para quem o faz. E isso significa que cada vez mais e mais pessoas continuarão a produzir seus trabalhos sem responder as três perguntinhas mágicas que evitariam boa dose de constrangimento:
1. Tenho real talento?
2. Tenho de fato o que dizer para quem comprar este trabalho?
3.O que me motiva realmente a faze-lo?
Se estas três perguntinhas fossem feitas de forma séria pelo artista a ele próprio e ele tomasse tempo para refletir em cada uma delas de forma cuidadosa, creio que ao menos 50% dos trabalhos que não deveriam jamais ter sido feitos teriam sido levados a termo. Mas essas perguntas, para mim fundamentais não são feitas pelo simples fato de que o "artista" em questão já sabe a resposta e basta uma delas ser negativa para que o trabalho seja arquivado antes de começar.
Música com "M" maiúsculo, é cada dia mais raro de ser produzida. Como consequência uma geração de ouvintes pouco exigentes até por não terem material de comparação que defina o que é bom ou não esta crescendo e quem perde são os artistas realmente talentosos que tem o que dizer e tem a motivação correta também para faze-lo. Uma pena. Mas assim é a vida.
É isso
Ouvindo: First Call "The Early Years" uma compilação honesta do tempo em que eles eram de fato, uma das maiores expressões da CCM.
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