Bastão De Selfie
Sou de um tempo em que fotos retratavam momentos. Eram instantâneos significativos da vida de alguém ou de nossa mesmo. O nascimento de um filho, os primeiros passos dele, aquela comidinha caindo no canto da boca, isso pra ficar em três situações. Quem me acompanha aqui, sabe que não sou um saudosista imbecil que fica dizendo que legal era o que no passado havia e como no passado nos comportávamos, longe disso, mas alguns costumes dos dias de hoje me irritam, para não dizer que me enojam ou mesmo me causam horror.
Selfies são por definição ao menos para mim, o que existe de pior no comportamento humano. A banalização do momento. Tudo "pede" uma selfie, tudo é motivo para se aponte os famigerados celulares para si próprio e em um click uma situação absolutamente banal, que na maioria imensa das vezes interessa apenas a quem se clicou, vire algo que na mente soberba e vaidosa do ser humano em questão algo "para a eternidade" e caia em alguma rede social em questão de segundos.
Artistas fazem questão de quando com a lotação esgotada de seus shows virarem para seu público e com eles tirarem uma "selfie coletiva" até jogadores de futebol já estão fazendo isso para comemorar os seus gols. A tecnologia tem de fato o condão de mudar a humanidade, ou ao menos os seus comportamentos, mas quando ela muda comportamentos elementares, quando ela mexe em rotinas organizadas não pelo dia a dia, mas pelo intangível bom senso, aquelas rotinas que dizem que temos que ser discretos na medida do possível e que toda exposição em excesso é algo deplorável e pior, quando este excesso passa a ser o padrão desejável de exposição, quando a nossa vida se passa mais no Facebook ou Twitter do que com os amigos reais no mundo real, a tecnologia deixou de ser aliada para ser algo digno de combate ou no mínimo de tratamento médico adequado.
O advento do tal "bastão de selfie", ou "pau de selfie", nos leva ao paroxismo em termos de exibicionismo barato e sem sentido. que a tecnologia pode oferecer. Facilitando de forma dramática para aqueles que como eu não tem coordenação motora para sequer enquadrar-se em um auto retrato quanto mais enquadrar duas, ou dez, ou cem pessoas na mesma foto, o tal bastão tornou o ato da fotografia antes tão pensado e elaborado algo que se faz como quem toma um copo com água. E é disso que se trata, assim como a água, expor-se nas redes sociais via selfies é algo que virou necessidade, pessoas não são mais elas mesmas se não documentarem momentos tão interessantes como o seu almoço e o que ele continha, ainda que para mim e para os que pensam o que alguém como no almoço é tão importante quanto a morte da bezerra.
O mais interessante é o efeito cascata que isso ocasiona com pessoas "curtindo" o almoço da outra pessoa ainda que um seja um convicto vegetariano que tenha postado um suculento prato com folhas e beterraba e o "curtidor" seja um inveterado carnívoro que nem sequer quer saber de um ingrediente deste em seu prato. Dai para ser legal muitas pessoas se tornam curtidores dos momentos absolutamente pequenos da vida de outras pessoas que não fosse essa febre que não passa na sociedade de expor-se a qualquer preço jamais despertariam qualquer interesse.
O tal bastão, este sim, deve ser mais uma febre de verão por idiota que é e porque creio firmemente que as pessoas cairão em si de com é ridículo e babaca ficar carregando um troço desajeitado desse para cima e para baixo ainda que no porta malas de um carro apenas para não perder a oportunidade de ser bocó e fotografar seu opor do Sol em Osasco que sem dúvida é a coisa mais linda do mundo.
O mundo segue é verdade, um caminho irreversível de imbecilidade. Comportamentos vis e sem sentido se tornam cada vez mais corriqueiros e quanto mais alguém se expõe, obviamente mais se destaca. Um comportamento "low profile" é hoje em dia visto como uma timidez inaceitável e mesmo um retraimento social inaceitável, que logo é imputado a falta de traquejo da pessoa o que lhe torna uma espécie de pária, incapaz de interagir como todos interagem e por este motivo deve ser relegado a um segundo plano social.
Pau de selfie, bastão de selfie o nome que se quiser dar, na verdade este objeto é nada mais nada menos que um símbolo (não fálico, embora o formato... bom...) do que estamos nos tornando em velocidade alarmante. Pessoas incapazes de dar valor ao que realmente tem valor e que supervalorizam o que vão, imbecil e desnecessário.
É isso.
Ouvindo: Madredeus
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