Cristiano Araujo, sua morte, o frenesi e a estupidez humana.


Antes de começar, vou deixar bem claro uma coisa: Nenhuma, repito, NENHUMA linha aqui escrita tem sequer 1% ou menos de teor pessoal, ou seja, vai contra ou a favor a pessoa de Cristiano Araujo ou algum familiar seu pelo simples fato de nunca te-lo conhecido e nem a ninguém de sua família. Me solidarizo é evidente com os seus pais, pois também sou um e a cena de seu pai sentado ao lado de sua cova, chorando da forma que me foi descrita, já que não a vi também me senssibilizou a vera. Nós pais, não devemos enterrar nossos filhos, são eles que nos enterram é assim que tem que ser.

Isto dito,  vou tecer algumas considerações sobre o frenesi que sua morte precoce causou em nosso país que mesmerizado pela noticia praticamente parou para acompanhar dois dias de cobertura ensandecida da mídia como se Cristiano Araujo fosse um chefe de estado ou coisa assim, não apenas um cantor ainda em ascensão com músicas não de gosto duvidoso, mas realmente ruins, que agradavam a um público específico, não a um todo da população que foi massacrada pela tal cobertura fora de tom.

Como disse, Cristiano não passava de um cantor esforçado cantando músicas que nem merecem ser categorizadas como tal, sendo apenas arremedos de canção compostos sob medida para uma platéia absolutamente sem noção do que seja verdadeiramente música. E é ai, meus caros, que a porca torce o rabo.

Deixemos a hipocrisia de lado e falemos francamente. Quem acredita, que toda a cobertura sensacionalista que a morte de Cristiano gerou foi realmente por causa de sua relevância artística? Ou pior, por conta da pessoa de Cristiano e de como ele era legal? O festival de imagens de arquivos, depoimentos de amigos e parentes além de outros "cantores", não se deu por nada além de uma surda guerra pela audiência. Não se respeitou o luto de familiares e amigos, não se respeitou a própria morte da pessoa, nada foi levado em consdideração além da repetição incessante de imagens do cantor para satisfazer uma turba sedenta por detalhes que quanto mais mórbidos, melhor.

Falta responsabilidade por parte de jornalistas, apresentadores, enfim, por todos envolvidos em tal cobertura. Um momento que deveria ser  de recolhimento e dor transforma-se em exposição pérfida e desnecessária e sobretudo de "catequisação" para os que como eu nem tinham ideia de quem seria Cristiano. Um frenesi desta monta não se justifica sob ótica alguma, a falta não de ética mas de carater de apresentadores como Augusto Liberato, que não se furtam em somar pontos de no Ibope ainda que a custa de um assunto que deveria sere tratado de forma leve e sútil tem elevado o Brasil a um patamar de baixaria que faz corar os pouco pensantes que ainda habitam por estas plagas mas por outro lado faz a festa da turba canalha ávida por tudo o que diga respeito a vida (ou morte) alheia.

Infelizmente fatos assim acabam revelando muito sobre quem somos como povo. Não estamos nem um pouco interessados na dor alheia. Se a  sanha por satisfazer a nossa própria necessidade de "informação" deste quilate for satisfeita ainda que a custa de tal dor, que se exploda. E sabe o que é mais irônico. Alguma major já esta neste momento contatando sua rede de produtores espalhadas pelo pais e concentrada obviamente em Goiás quando se trata deste estilo de canção, para que o quanto antes o lugar de Cristiano seja tomado por outro cantor que seduzirá suas ainda imbérbies (e outras nem tão imbérbes assim) fãs. Na próxima temporada de rodeios, outro "cantor" já terá tomado seu lugar e sem dúvida alguma o coração de suas fãs baterá mais forte por ele e assim será sempre, pois a roda não para de girar. Cristiano será história por um curto espaço de tempo e depois será solenemente esquecido. É assim que as coisas são.

Quanto a estupidez a que me refiro no título ela se revela cada vez que fotos com a cabeça rachada da namorada de Cristiano são abertas, vídeos de sua autópsia (é, autópsia) são compartilhados e pessoas embevecidas e entorpecidas pelo contéudo tétrico e funesto produzidos de forma desprezível ficam a imaginar como e porque o acidente aconteceu esquecendo-se que isto neste momento é o que menos importa. Cristiano araújo morreu e elocubrações sobre o porque e como não o trarão de volta, apenas renderão conversas sem sentido e pobres  de conteúdo, mas assim é nosso país, assim é o nosso povo.

Hoje morreu Altamiro Carrilho, um dos últimos bastiões da real música de qualidade brasileira que resistia bravamente.  Quase ninguém diz nada sobre sua morte nem está realmente interessado se sua flauta jamais tocará novamente. Não digo que as pessoas sejam obrigadas a gostar de música de qualidade, mas digo que triste é o país onde Carrilho é ignorado e Araújo tem cobertura de chefe de estado. Onde vamos parar?

É isso.

Ouvindo: Altamiro Carrilho

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