O Inverno, as ruas, os moradores de rua, a tristeza.
Não existe uma política séria para acolhimento de moradores de rua no Inverno. A bem da verdade, não existe política de acolhimento em época alguma do ano, mas no Inverno a coisa fica mais triste e difícil.
Vivi esta triste realidade por um tempo de minha vida e o Inverno, que para muitos (inclusive para mim hoje em dia) é uma estação do ano para se estar ainda mais junto de quem se ama, para moradores de rua, se torna um suplício, um verdadeiro mártirio. Se já são invísveis por natureza, imagine no Inverno?
A fome, ou um estado permanente de insatisfação alimentar que assola o morador de rua já é díficil de lidar por si só, mas quando a ela se alia o frio, a chegada da Depressão também é certa, pois triste demais é viver assim. E o que temos eu e você leitor com isso? Nada. E tudo.
As prefeituras das cidades em que vivemos, são as responsáveis pela resoulução de questões como esta. A da maior metrópole da America Latina, São Paulo, entra ano, sai ano, nada faz. Faz ciclovias discutíveis para ganhar votos com os politicamente corretos, faz bilhete único, faz obras que cheiram mal, mas acolher os seus cidadãos que desafortunadamente moram em condições precárias, não esta e nem nunca esteve entre suas prioridades. Acolher é necessário e é sim um dever do estado, pois não o poder público não pode virar as costas para quem nada tem, ao contrário, deve minorar os seus problemas.
Os albergues noturnos da prefeitura beiram o ridículo com funcionários que tratam mal a quem a eles recorrem, de tal forma que muitos moradores de rua preferem na rua ficar para manter o minímo de dignidade que lhes resta. O mais patético é colocar quem está lá dentro na rua as 5:00 horas da manhã, exatamente quando o frio é maior e mais intenso. Por que? Certamente nem os gestores destes locais tem uma resposta adequada, mas arrisco dizer que a grande questão é simplesmente a falta de vontade de lidar com pessoas pobres e derrotadas.
Pessoas a quem restou a rua como moradia, não deixam de ser pessoas. Não deixam de sentir fome frio e medo. Tentar dizer que só chega a esta situação quem perdeu para si mesmo é tacanho e grosseiro. Ficar quieto é melhor. As histórias que conheço de pessoas com as quais convivi são de cortar o coração e me fizeram pensar sobre o poder das palavras, de gestos impensados, sobre a falta de sensibilidade e sobretudo sobre o poder nefasto da indiferença.
A tristeza latente nas palavras e olhares de quem nada tem além do asfalto como cama deveria nos tocar, deveria nos fazer cobrar ações concretas de quem pode e deve toma-las. Somos cidadãos, pagamos impostos e querer que eles se revertam apenas em nosso beneficio além de mesquinho é pouco poducente, pois quanto menos moradores de rua existirem, mais pessoas reabilitadas para o convívio social haverão. Olhar para um desvalido e fazer de conta que ele não existe não faz com que ele não exista, só nos torna pessoas um pouco menos generosas e bondosas do que deveríamos ser.
Moradores de rua existem, precisam de ajuda e é em minha opinião, nosso dever ajuda-los. Não apenas com um prato de sopa quente, embora isso ajude muito, mas com uma mobilização séria e coordenada para que as prefeituras tomem para si o papel que lhes cabe neste Inverno que esta apenas começando.
É isso.
Ouvindo: Leonardo Gonçalves
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