Um Dia um Homem Conheceu Minha Mãe
Um dia, em algum lugar lá no passado, um homem conheceu minha mãe. Ainda jovem como ela era jovem, ele a conheceu. No colégio onde ela estudava, é tudo o que eu sei. Desse encontro, eu prefiro achar que de alguns encontros, na verdade eu acabei sendo gerado. Algumas pessoas amam dizer que o Universo sempre conspira a favor. Bom, vale dizer que o contrário também é verdadeiro e neste dia, ele conspirou contra esse homem, minha mãe e me enviou sei lá para que.
Quando eu nasci, esse homem não estava ao lado da minha mãe. Nem quando eu fui para casa ele também não estava. Não era a casa dele e ele nem foi me visitar. Eu não sei quem ele é. E após 45 anos de idade, no dia 09/09/18, eu já deveria ter me acostumado com este fato e o superado. Fato é que nada disso aconteceu e não te um dia que eu não me pergunte o que eu fiz de tão grave para que ele não se apresentasse a mim.
Dizem as pessoas que me conheceram quando criança que eu era um bebe bonito. Fico pensando se minha mãe caiu na besteira de comunicar a este homem que eu tenho um defeito nos dedos dos pés e ele que já não queria nada com ela mesmo achou isso a desculpa ideal pra nem me conhecer. Pode ser, tem pessoa que se melindram com muito menos e eu não o culpo. Mas eu era sim um bebe bonito, tenho fotos para comprovar, estão amareladas, mas comprovam. Aos 9 meses eu sentei, aos 11 meses eu levantei e andei, acho que são bons números. Eu falei rápido, aos 4 anos sabia ler e escrever ensinado por minha mãe. Não é que eu lia de qualquer jeito ou escrevia com erros. EU SABIA LER E ESCREVER. Isso foi suficiente para despertar interesse desse senhor? Não.
Os poucos anos que fui para escola, fiz da melhor forma possível os trabalhos de dia dos país. Desenhar nunca foi meu forte, mas eu me esmerava. Crianças as vezes são tolas e eu ficava esperando que este homem que conheceu minha mãe resolvesse aparecer em casa e pegar o desenho ou objeto ou sei lá o que que eu tivesse feito. Nunca rolou. No fim do dia, eu de tão triste rasgava ou destruía o que quer que fosse.
Claro que conforme fui crescendo eu percebi que este homem jamais viria me visitar. E querem saber Não o culpo.Não me tornei um menino padrão. Era briguento demais na rua, violento que era, não tinha muito amigos e sai da escola antes de completar o ciclo que na minha época era chamado de primário. Me tornei amigo dos livros. Li e tenho lido desde então compulsivamente sobre tudo.
Outro dia pensei comigo mesmo se por acaso esses homem não estivesse me monitorando de longe, para ver se valia a pena se apresentar como meu pai um dia. Eu nem estudei, que vergonha! Seria meio embaraçoso para ele e para mim eu não ter um diploma sequer para mostrar a ele e entendo que se um dia ele tenha me monitorado tenha em seguida ficado com vergonha do que me tornei, entendo perfeitamente que nenhum pai quer ter um auto didata que pouco sabe da vida e não pode fazer o pai se orgulhar e encher a boca para os amigos e dizer que o filho é médico, advogado, engenheiro, sei lá. Esse homem teria que com um sorriso amarelo dizer: Ele não estudou, é corretor de imóveis... Esse sou eu, sempre decepcionando as pessoas ao redor.
Hoje, cada venda que eu faço, cada pequena coisa boa que eu consigo realizar, cada gesto positivo, eu paro e me pergunto se o orgulharia. Não sei o que faria se este homem aparecesse em minha frente do nada, provavelmente ficaria sem fala, sem jeito, sem nada, mas tentaria impressiona-lo com minha nada interessante vida, pinçando um ou outro fato relevante.
Um dia um homem conheceu a minha mãe e eles me geraram. Eu não sei quem ele é, só sei que o amo, mesmo que ele tenha me rejeitado.
É isso.
Ouvindo: Heritage Singers
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