Dentro de Mim Tem Uma Flor



Dentro de mim tem uma flor. Não esta em uma redoma, apenas está lá, dentro de mim. As pétalas talvez estejam murchas, o pequeno caule ressequido, a ponto de desabar em si mesmo, mas ela, a flor, insiste em ficar ali em lugar desconhecido dentro de mim.

Acho que foi Deus que plantou, na esperança que eu cuidasse dela. Penso que Ele queria que eu a regasse, alimentasse com algum tipo de fertilizante,  fizesse a poda das pétalas (se faz pode de pétalas?) enfim, creio que essa flor deve ter sido colocada como um memorial de que eu fui criado por Ele e para Ele dentro de mim.

Eu não cuido dessa flor. Alias, a quantidade de detritos que cai por cima dela é contundente e mais contundente é a sua vontade em estar viva, permanecer ali, de pé em meio ao lixo, ao caos. Uma flor que foi plantada por Deus só pode ser bela e sinceramente não entendo o porque de ela ter sido colocada dentro de um ambiente tão nocivo como meu interior. Não sou uma boa pessoa e menos ainda um local indicado para ter uma flor tentando sobreviver.

Esta flor que esta dentro de mim contra todas as probabilidades me lembra as vezes e só as vezes que sou fruto de um criador que me ama. Embora eu seja tão refratário ao seu amor, ele continua me amando. Continua tentando de todas as formas chamar minha atenção. Chega a ser engraçado, porque apenas Ele pode explicar o porque amar a alguém que não está nem ao para esse amor.

Mesmo tendo dentro de mim uma flor, eu me faço espinho, me faço cardo. A flor dentro de mim deveria ser apreciada, mas é antes aprisionada. Sem um respiro sequer para entrada de ar, sobrevive sabe-se lá como. Ela não cumpre a função de me fazer melhor, ao contrário, eu faço a flor pior a cada dia, até que um dia, de forma inevitável ela vá sucumbir.

Essa morte anunciada da flor que existe em mim deveria causar tristeza, mas causa indiferença. Isso chega a ser espantoso, porque essa flor que insiste em resistir, é a causadora dos poucos bons momentos que tenho. Quando paro para admira-la, me sinto realmente comovido, mas a comoção como tudo passa e volto a despreza-la.

É como se não admitisse algo bom dentro de mim, um último suspiro de beleza em meio ao caos. Mas a teimosia desta flor em resistir é tanta, que me sinto impelido muitas vezes a começar a trata-la de forma diferente. Talvez eu devesse lhe dar atenção, ser bom para com ela, deixar de ser espinho para ser apenas flor. não é fácil, mas por que não tentar? Por que não acreditar na beleza da flor e na função curadora dessa beleza? Por que não buscar redenção nesta flor? ela esta aqui não é mesmo? Ainda viva, ainda resistindo, então isto tem que significar alguma coisa.

Dentro de mim tem uma flor. Não pode ser só enfeite. Não é só enfeite. Não será só enfeite.

É isso

Ouvindo: Maria Callas

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