A Vida Segundo Andrew Beckett
Andrew Beckett, personagem ficcional do filme Philadelfia de 1993 inspirando livremente em um personagem real advogado como ele e demitido de uma firma de advocacia ao ser percebido com AIDS por um dos sócios é um personagem dos meus preferidos senão o meu preferido no meu universo cinematográfico.
Interpretado com uma obstinação fora do normal por Tom Hanks o que acabou por lhe valer o primeiro de seus Oscars Andrew é o protagonista de um mundo que é dele e de poucos, mas que deveria ser o de todos. Não, não é o mundo dos homossexuais, que ele de fato era, mas o mundo onde suas opiniões e preferências pessoais não importam para a comunidade, importando apenas para quem se importa com ele antes.
Um mundo onde o antagonismo das idéias, tão saudável e necessário para o desenvolvimento dos seres humanos, pois não os deixa ir em apenas uma direção balanceando-os em diferentes níveis e fazendo com que não apenas Andrew seja protagonista mas todos os que quiserem ser possam assim atuar e aos que preferem um perfil coadjuvante nada seja negado também. Um mundo onde eu e você podemos discordar e ainda sim nos respeitar, sem ironias, sem maldade, sem que eu me sobreponha a você e vice e versa.
Infelizmente, a vida segundo Andrew Beckett é cada vez mais difícil de ser vivida. Não no sentido de ser como ele homossexual, nada disso. Ou também isso, mas não é esse o meu ponto por não ser minha realidade. Falo de tudo de toda a pluralidade e diversidade que deveria ser abraçada por todos. A cada dia o mundo é menos plural e a cada dia mais temos que ser todos robozinhos teleguiados por algumas poucas ideias que na sua maioria são sem sentido mas que mesmo elas deveriam ser aceitas como parte desta pluralidade que tanto peço. Não é assim que ocorre.
Não acreditar nos dogmas que a maioria das pessoas acredita hoje em dia te faz além de diferente, chato, sem noção, alguém até subversivo e perigoso. Não posicionar-se com a malta é quase que uma declaração de guerra contra a maioria, é insurgir-se quando na grande maioria das vezes apenas o que se quer é pensar livremente sem fazer deste ato uma declaração de direitos. A vida de Andrew Beckett exige uma sensibilidade não percebida pela turba agitada de hoje em dia que espera ansiosamente quando armas serão vendidas nas Casas Bahia a preços módicos e em prestações a perder de vista para ficar em um exemplo recente.
E a turma que quer armas para si sabe-se lá por que sente-se ofendida quando confrontada com a ideia contrária, a de ter arranjos florais em suas casas ao invés de cartuchos de balas dum-dum. Deveriam eles ser impedidos de terem tais armas? Creio que não, mas a maioria que agora clama por armas legalizadas ao alcance de um esticar de braços, pode muito bem achar que a saída para um mundo mais legal é assassinar os que pensam diferente. Higienizar o mundo talvez seja a solução para eles.
Eu quero uma vida segundo Andrew Beckett. Uma vida que não deixe acumular fortunas, que tenha ópera tocando como trilha de fundo o dia todo, onde as festas tenham cantores bacanas nos divertindo com suas canções igualmente bacanas e sobretudo onde pessoas que acham que podem resolver tudo na bala, coexistam comigo de forma respeitosa. Respeito, seja as diferenças sexuais, filosóficas, metafísicas, seja qual for a diferença afinal de contas. Respeito. A vida segundo Andrew Beckett prega a transformação pelo exemplo e o respeito as idéias contrárias.
Um mundo onde a sexualidade do meu vizinho se for diferente da minha não me afronte. Que as minhas ideias não afrontem meu vizinho por serem diferentes das dele. Que as definições de amor sejam tantas e tão particulares que sejam impossíveis de contar e isso não cause espanto. Um mundo onde o amor transborde e os tantos Andrew Becketts que insistem em anonimamente tentar mudar o mundo não sejam perseguidos por agirem como agem e serem quem são.
A vida segundo Andrew Beckett é uma vida simples, que vale a pena ser vivida. Recomendo a quem não assistiu que assista o ainda muito atual e necessário Philadelfia com Tom Hanks e Denzel Whashington encabeçando um elenco espetacular onde até Antônio Banderas tem uma atuação que presta. Assista, reflita.
É isso.
Ouvindo: Neil Young
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