O Bailarino Que Eu Não Fui /46 Anos Que Valeram a Pena
Seria um cara muito mais bacana o Bailarino que eu não fui do que é o Corretor que me formei. Não me entendam mal, amo minha profissão, de paixão, mas ela me tornou aos poucos um gordinho burocrata e sem graça. Toda a sensibilidade, paixão pelo que a arte pode fazer por alguém foi se esvaindo de mim no momento em que pela primeira vez pisei em um plantão de vendas. A vida ficou dura, cética e como eu disse, burocrática.
Não é que eu não goste de mim ou do que me tornei, são linhas, formas de ver a vida completamente diferentes, mas as vezes e como eu gosto deste "as vezes" o Bailarino emerge e guia alguma de minhas atitudes mesmo que a contra gosto do Corretor e acreditem, são os momentos em que sou mais feliz.
Hoje completo 46 anos de idade e por pura coincidência, ontem fui a apresentação de balé da minha sobrinha. Não balé, especificamente, mas dança, a mais nobre das artes para mim. Engraçado que o Corretor já me fez chegar depois da metade, perto do final para dizer a verdade, mas o Bailarino obstinado me fez ir e mesmo sem o ingresso, que estava com minha mulher, consegui entrar, mas ai foi o corretor que entrou em ação com sua conversa fácil e convincente.
Quando entrei, foi o exato momento do solo da professora da petizada. De vestido vermelho ela executou um mix um tanto quanto confuso porém altamente emocional de danças baseadas em algumas músicas que se por um lado poderiam ter sido melhor escolhidas tornando a apresentação mais técnica, acabou trazendo a tona a emoção da moça que claramente escolheu um set autoral ao invés de técnico que poderia faze-la brilhar mais. Goste da escolha e fiquei me imaginando aos 46 anos, bailarino.
Eu já disse aqui algumas vezes e repito: Sempre quis ser bailarino clássico. Todo paramentado, levantar as bailarinas para que flutuassem através de mim em suas apresentações.Existe em mim, uma verdadeira adoração aos grandes bailarinos, Nureyev, Baryshnicov, Nijinski e tantos outros que emocionaram plateias ao redor do mundo. Existe algo que possa ser mais belo que isso:
Talvez apenas a beleza e delicadeza da voz de Mara Callas, nada mais se ombreia a um espetáculo de Ballet Clássico. Mas de qualquer forma, ontem, enquanto observava a professora imaginei o que teria sido de mim se tivesse podido me matricular no curso que quando criança tentei me matricular. Eu teria levado muito, muito a sério. Acho que teria um potencial gigante e não seria tão tímido como hoje sou.
Quando as crianças entraram para os seus números finais eu as invejei de certa forma. Nunca tive a oportunidade de dançar, para alguma plateia e claro, jamais terei tal chance, mas acho que me sairia bem se tivesse aos 8, 10 anos começado. Hoje vendo imóveis e me saio bem com isso também, mas de verdade, não chega nem perto a felicidade da realidade imobiliária da ilusão dançarina que me toma as vezes e em meus pensamentos me faz passear por palcos do mundo todo.
Talvez muito achem que eu deveria é crescer e pensar em coisas mais objetivas aos 46 anos. Eu também acho. Mas as vezes, como por exemplo agora, o Bailarino fala mais alto em mim e tudo o que eu preciso é deixa-lo fluir e imaginar o que eu poderia ter sido, a pessoa que eu poderia ter me tornado, caso tivesse uma roupa leve como a arte de dançar.
Mas estou aqui, no plantão de vendas, prestes a ir para casa e acreditem, isso também me faz feliz. São felicidades diferentes, é lógico, mas se é de felicidade que se fala, que ela exista, de uma forma ou de outra não é mesmo?
É isso.
Ouvindo: Maria Callas
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