No Temporal



Talvez eu deva me ver em um temporal e tentar me reconhecer dentro dele. Sim, como diz a canção de Sandy e Tiago Iorc, eu preciso urgentemente me reconhecer porque eu já perdi a referência de mim mesmo. E faz tempo, só fica difícil admitir tal coisa para si mesmo, mas eu perdi. E isso é triste.

Eu não sei se sou o corretor de imóveis mal humorado e de poucos (ou nenhum) amigos ou o cara que fica simulando uma língua Espanhola em casa com a esposa e a enteada apenas para fazê-las rir. Não sei se sou a pessoa insensível que vendo no dia a dia ou o cara que chorou vendo "A Culpa é Das Estrelas", bobagem juvenil que tocou meu coração.

Não sei hoje quais são os meus padrões e limites porquê na ânsia de me tornar um profissional de ponta no ramo de venda de imóveis eu fui aceitando paulatinamente alargar minha visão de mundo a um limite muito maior do que eu sempre julguei ser o ideal. Existem conceitos que não aceito de forma alguma mas vou dizendo que podem ser válidos apenas para não debater e colocar minhas idéias na mesa sabendo o quão inútil isso será.

Talvez, se eu me olhar no temporal, e eu acho que a sacada da letra (e claro, é uma interpretação minha) é que quando estamos em um temporal, a chuva nos lava e purifica, como se água que ela traz pudesse me traz a paz perdida. Antes de ser corretor eu era office boy. Depois tentei aprender a arrumar portões eletrônicos, até entendi o conceito mas é evidente que minha inabilidade manual me impediu de prosseguir.

Sim, houve um tempo em que tinha a ilusão de que trabalha com música, mas comprar e vender cd's cristãos não é exatamente "trabalhar com música". Tudo isso para dizer que mesmo nessa época distante onde não tinha uma ocupação definida, eu me sentia mais respeitável no campo das idéias. Hoje me acho um deserto e por mais que eu busque leituras mil, e ouvir todas as músicas que puder ouvir e apreciar a dança, as artes plásticas, o cinema, tudo isso bate em um muro e me sinto estéril sem capacidade alguma para produzir pensamentos que não sejam  direcionados a como vender um imóvel.

Eu preciso de um temporal pois me sinto exaurido dessa ideia de ser um vendedor espetacular. Já me provei ser um e nada me trouxe de bom essa pecha. Dinheiro? É, ganhei algum e gastei todo. Respeitabilidade? Quem é você no mercado imobiliário se não parece ser quem você é? Louco né? Mas é um meio onde ser não adianta nada se não parecer. Eu preciso de uma tempestade, pois só ela pode me lavar, me descontaminar e me revelar novamente porque eu sinceramente não sei quem eu sou. Não faço a menor ideia.

Eu vivo me envergonhando secretamente de coisas que eu digo, vivo me sentindo mal, sujo, sem escrúpulos e logo em seguida falo e faço tudo de novo, porque a pessoa que eu não sei quem sou triunfa sobre a pessoa que eu palidamente vislumbro que eu deveria ser. Existe uma necessidade muito grande de ser alguém gritando em mim. Tenho 46 anos e não sei quem sou.

Sei que tenho uma essência boa, mas isso não é o suficiente. Eu até poderia ser mal de vez, desde que esse fosse eu. Ser uma pessoa que é apenas um projeto, aos 46 anos, não me serve mais. Existe a necessidade de no temporal eu estar, talvez, como comigo tudo é superlativo, eu devesse estar no centro de um tornado, com o vento e trovões ribombando, com a fúria da natureza gritando diretamente em meus ouvidos para que eu defina de uma vez por todas quem eu quero ser, rapaz que se emociona com comercial de margarina ou o predador sem coração que só se interessa pelo seu lado e só ele quer resolver.

Esse ser híbrido  que pouco a pouco me tornei não me interessa mais. Eu preciso de um temporal, daqueles grandes, catastróficos, que cause uma catástrofe em mim de proporções épicas. Que ele venha, e venha rápido.

É isso.

Ouvindo: Os Arrais

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