Stay For A While, Mamãe
Eu sou por definição um sujeito bem estranho. Dia das mães, plantão vazio e eu estou aqui ouvindo Amy Grant. Claro que não sou estranho por ouvir Amy Grant, mas estou ouvindo especificamente uma música que gosto demais chamada "Stay For A Wile" (algo como Fique Mais Um Pouco). Me dei conta então, que é exatamente isso que eu gostaria de dizer para a minha mãe: Stay For While, mamãe.
Nunca chamei minha mãe de mamãe, mas no meu whats seu número é identificado como "mamãe" e ultimamente só tenho pensado nela como mamãe, exatamente a forma com que ela se referia a minha avó, sua mãe. Minha mãe tem câncer. No figado e no intestino, o diagnóstico agora é oficial e embora nossa convivência tenha sido difícil, a única coisa que consigo pensar é que gostaria que ela ficasse mais um pouco.
Acho que precisamos ir a um parque. É, um parque. Pode ser qualquer um, desde que a gente possa caminhar e conversar e trocarmos idéias e quem sabe até podemos rir por maia que sejamos ambos dois casmurrões ensimesmados. Acho que nos sobra um senso de humor peculiar que talvez nos faça das boas risadas neste final, quem sabe? Talvez o Sol batendo em nossas cabeças nos aqueça os corações, por que não? Mas para isso acontecer, ela precisa ficar mais um pouco. Apenas mais um pouco, mamãe.
Precisamos ir comer comida Japonesa. Eu sei, mamãe que você ia adorar. Porque eu desde a primeira vez que comi, adorei e como somos uma xerox emocional um do outro, sei que você vai gostar também. Comer um salmão cruzinho seria delicioso ao seu lado. Vamos, mamãe? Mas para isso, você precisa ficar um pouco mais ainda.
Eu preciso demais comer o seu bolinho de chuva sem açúcar e salgado. Só você sabe fazer, só você! Como algo tão simples como uma massa composta por farinha, ovo, aguá e leite pode ter se impregnado de forma tão definitiva na minha memória? Sabia, mamãe, que eu fecho os olhos e sinto aquele gosto delicioso e o cheiro do seu café. Eu sinto, juro que sinto. Para você fazer esses bolinhos novamente, stay for a while, por favor.
A gente precisa ir a praia. Você me ensinou a brincar nas ondas e até hoje, toda vez que entro no mar, é da forma que você me ensinou, boiando e respeitando o Mar como sempre me aconselhou. Mas fomos uma vez só, pra Santos, a primeira vez que vi o mar e depois todas as outras milhares de vezes você não estava presente. Fique mais um pouco, por favor, para irmos ao mar. Para sentarmos nas pedras, ver o Sol se por e conversar sobre a vida dura que você sempre teve e a minha também, nada fácil. Eu sei que mais uma vez vamos achar motivos para sorrirmos se ao som das ondas que batem nas rochas a gente lembrar de fatos pitorescos de sua e de mina vida seja os que passamos juntos, seja os que a sós foram vividos.
Fique mais um pouco porque preciso te visitar mais uma vez ao menos e o trabalho não me deixa sair. Eu preciso ir ai olhar nos seus olhos e dizer que te amo, porque de fato eu te amo sabe? Eu preciso te abraçar e te ouvir dizer do seu jeito típico com o sotaque nordestino que nunca te abandonou "meu filho, como você esta lindo" (é sempre a primeira coisa que você me fala quando me vê). Fique mais um pouco. Não estou pedindo muito.
Por fim, fique mais um pouco porque ainda sou apenas um menino assustado no mundo que tenta criar sua neta da melhor forma possível e que não sabe muito bem pra onde ir e nem como. Stay for a while porque a vida sem você não faz muito sentido ainda que não nos vejamos a muito, muito tempo porque sabemos eu e você que nos amamos e não precisamos de sentimentalidades para mostrar isso. Por favor, fique mais um pouco porque existe uma necessidade muito grande de tê-la por perto, ainda que longe.
Eu amo você, Mamãe.
É isso.
Ouvindo: Amy Grant
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