Sobre Axel



"A Caminho de Casa" é um daqueles filmes pensados para serem fofos e causarem reações  emocionadas, lágrimas  e confortar corações entristecidos com a possibilidade de ainda haver gente boa no mundo que defendem animais, querem uma vida saudável e simples e extraem a felicidade de pequenos gestos, pequenas bondades do dia a dia.

Acontece que ao menos para mim, "A Caminho de Casa" toca em um ponto muito, muito importante que é a sensação que todos deveríamos ter de pertencermos a alguém e a algum lugar. Não é possível viver desconectado, sem amarras sólidas com pessoas ou locais. Ao menos para mim é assim que funciona. Aprendi em meio a muita dor e tristeza que ter alguém para pertencer e um local ou locais para sentir-se seguro é de extrema importância.

O filme tem um roteiro ok. As animações são meio fraquinhas e o elenco, com exceção de Edward James Olmos, o Axel em atuação magistral como sempre dele se espera, varia entre o preguiçoso e o incapaz mas o que o faz valer a pena e eu recomendar que se assista é esse conceito de pertencimento que permeia o filme todo.

O único personagem que não pertence a ninguém, que não tem uma referência, boa ou ruim de família ou amizade, é o de Olmos, Axel. Pouco é esclarecido sobre ele, provavelmente um Veterano de Guerra que virou sem teto e vagueia por cidades do Colorado, onde o Inverno pode ser um flagelo para quem não tem um lar. Bella a cadelinha que se perdeu do dono e esta em uma jornada de 600km  entre ela e o dito cujo encontra com Axel em algum ponto desse trajeto.

A partir dai, percebe-se que Axel é um ser triste por não ter ninguém e embora a use como isca para ter esmolas mais generosas desenvolve real amor por "sua" cadelinha, alimentando-a, protegendo-a, tentando criar exatamente este pertencimento tão crucial e importante. Na noite em que Axel morre, Bella "diz" "Ele estava triste, mais triste que nos outros dias. Ele sempre me mantinha na corrente, embora eu não gostasse. Naquela noite, me aninhei a ele até que senti lentamente o calor de seu corpo indo embora e enfim, ele não tinha mais calor algum. Axel não estava mais triste"

No filme todo, Axel é o personagem que realmente me importa. Quais os (des)caminhos que nos levam a solidão total? Ao desprezo da sociedade, família, amigos, enfim, torna um ser humano em pária? Devemos relegar alguém a condição de pária ? Não existem atenuantes possíveis?  Axel é invisível mesmo a quem lhe ajuda com alguma esmola pois essa ajuda  parece servir como alívio a quem a dá e ai essas pessoas seguem em frente sem realmente enxergar o pobre Axel que representa a tantos e tantos que estão na mesma condição.

Quando percebi que o desenrolar da trama levaria a morte de Axel, quis chorar. Segurei porque foi uma saída digna para ele e porque é a realidade retratada em um filme de fantasia. Não pertencer a alguém ou a algum lugar leva ainda que lentamente a um quadro que se torna irreversível de apatia, tristeza  depressão. Axel obviamente descontava na bebida que entornava, mas Axel, ainda que defendido de forma magistral por Olmos é um personagem. Me preocupam os verdadeiros  "despertencidos" aqueles que não tem a  ninguém, que não tem nada.

"A Caminho de Casa" é um filme que vale a vista, mas a questão que ele levanta merece uma reflexão mais apurada.

É isso.

Ouvindo: Djavan


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