Morte Na Tarde



Uma pessoa acabou de se jogar de seu apartamento e morrer. Seu prédio, fica bem em frente ao meu plantão de vendas. A rua do meu plantão, apesar de ser no centro de Osasco, é muito calma, tendo apenas um trânsito local. Estava ela como sempre esteve até cinco minutos atrás. Agora, tomada de carros de polícia, ambulância e uma horda de curiosos, a rua entrou no centro dos comentários de toda a redondeza.

Acrescenta um toque de curiosidade ainda que mórbida, o fato de ser o prédio onde reside o Prefeito de Osasco, ele que sempre está atrelado acontecimentos insólitos para dizer o mínimo como o da fogueira junina que por pouco não ceifou sua vida. Lugares de Osasco que não quero estar: Prefeitura da cidade e qualquer outro local onde Rogério Lins (o Prefeito em questão) esteja.

Mas não é sobre a cidade ou sobre o prefeito que quero falar. São ambos, desinteressantes. Osasco tem o charme de uma velha vedete de 108 anos e o seu Prefeito é um dos tipos mais insípidos que a política já produziu. Quero falar da vida, de como ela é frágil, de como a decisão de jogar-se do quinto andar de um prédio, provando a Teoria da Gravidade pode em segundos decompor  todo um sistema criado para fazer a manter-se, destruindo um corpo que inspira e respira de forma cadenciada transformando-o em uma massa inerte de carne e ossos quebrados.

A vida, é um piscar. É  frágil, um sopro que pode parar de fluir a qualquer momento sendo ou não da vontade de seu titular detentor.  A morte toma o seu lugar de forma inclemente, cessando qualquer comunicação com os que ficam, deixando a dor da perda para estes enquanto o que morreu nada sabe, apenas jaz no escuro abismo do sono profundo que é a morte.

Não conhecia a pessoa e versar sobre suas motivações seria leviano demais de minha parte.  Mas me impressiona sempre e sempre a figura do suicida. Não que eu não lhe credite um certo entendimento, pois a vida é ao menos para mim, em muitos momentos, um exercício excruciante de manter-me operante quando tudo que eu queria era estar desativado, mas dar cabo da vida me parece tão extremo que simplesmente não consigo pensar na possibilidade, uma vez que acho que sempre, sempre posso achar uma saída.

Não acredito que morrer seja uma saída e sim uma consequência de uma série de fatores que escapam a nossa mão como a passagem do tempo pura e simples, uma doença que venceu a batalha pela vida, um acontecimento  inesperado como um acidente automobilístico ou equivalente, enfim, algo que não nos diz respeito e por este motivo fuja ao controle. Sentar, planejar e executar a própria morte não é algo que faça para mim o menor sentido.

Uma senhora grita agora, de forma desesperada, amparada por outras pessoas que estão tão em choque quanto ela mas talvez consigam ter um controle maior. Certamente é parente da senhora que acabou com tudo e deve estar tão estupefata como eu que nem a conheço, estou. Morrer todos morreremos, morrer porque se quer morrer, é algo tão doloroso como inexplicável.

Essa senhora que grita me comove, mas não consigo sair aqui do meu "aquário" para acompanhar a cena da rua, acho que minha curiosidade seria desrespeitosa em um momento como esse a quem perdeu  um ente querido. Gostaria de expressar condolências, mas duvido, e muito, que alguém queira ouvir o que quer que seja, por mais empolado e bonito que possa soar. A morte nos causa estranhamento todo o tempo, o tempo todo, por mais que ela seja uma certeza em nossa vida.

Está fazendo 34c os policiais com seus coturnos andando  a passos largos e rápidos para lá e para cá em seus uniformes cinzas que retém muito mais calor que o recomendável parecem ao menos para mim, indiferentes, até um pouco irritados por estarem tratando este tipo de ocorrência.  Talvez eu os compreenda, uma vez novamente a questão de tirar a própria vida nos estranhe e talvez ainda mais a quem tem que participar como protagonista de uma ato que de forma alguma seria seu.

A vida é um piscar. pessoas morrem todos os dias. Mas pessoas não deveriam se matar ainda que só cada um saiba a dor que carrega. Alguém morreu muito perto de mim, por decisão própria. Eu decido pela vida, ainda que ela seja muitas vezes um show de opressão sem fim.

É isso.

Ouvindo: Crosby, Stills, Nash & Young

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