O Dia Em Que Charlie Se Foi
Charlie Brown, personagem de Charlie M. Schultz é meu personagem por definição. O menino tímido que não se da bem com as garotas, é péssimo nos esportes e incompreendido na escola. Charlie é um loser rematado mas não sabe, (porque ainda não cresceu) que será alguém se assim o quiser.
Eu cresci, me tornei alguém, mas minha porção Charlie não me abandona. Sempre que olho para trás vejo o menino que saiu da escola por não aguentar a opressão que sofria na quarta série e nunca mais voltou. Vejo o garoto tímido, mas tão tímido que mal conseguia abrir a boca e vivia enfurnado em seus livros e ali era feliz.
Como Charlie tive uma garotinha ruiva para chamar de minha com o detalhe que ela nunca me pertenceu. Era um pouco mais solitário que o Charlie de Schultz porque não tinha um Linus como amigo ou qualquer outro amigo. Meus amigos estavam nos livros e somente lá. Mas não é um post sobre minha infância miseravelmente monótona e triste mas sobre Charlie.
Charlie, meu bonequinho que adquiri depois de adulto, numa dessas promoções do Mac Donalds e me acompanha desde então. Sempre esta ao meu lado ou em minha mochila ou em minha mesa como hoje, ao lado do notebook, observando meu trabalho e me lembrando de onde eu vim e quem eu sou.
Ganhei também um maior, da Graziela, minha esposa, de crochê creio eu, maiorzinho e que ficava 24 horas no carro conosco. Falei com ele várias vezes enquanto dirigia, contando piadinhas, falando de minhas agruras, de minhas esperanças, sonhos, enfim, Charlie no carro enquanto eu estava só, era meu melhor amigo e razão de alguns olhares assustados dos carros ao lado em algum farol.
Este Charlie hoje se foi. E eu fiquei feliz! Minhas esposa estava em um farol e uma família de pessoas, destas que Bolsonaro diz não existir, de pessoas pobres formada por uma mãe e seus filhos a abordou no carro pedindo moedas. Charlie ficava no painel, a vista de todos e uma das filhas desta senhora o viu. Não se conteve e disse o quanto o tinha achado lindo. Graziela em um lindo gesto, deu o Charlie para a menina que pulou de felicidade. Farol aberto, Graziela se foi e Charlie ficou.
Acho que a missão de Charlie é esta, fazer esta menina feliz. Pois que faça e assim eu serei feliz também. Objetos não são nada sem as histórias que os circundam. Dinheiro, jóias, carros, tudo isso precisa estar envolvido em histórias reais, quentes, bonitas que transbordem felicidade em volta deles, ou são apenas seres inanimados e sem razão de existirem e o fogo talvez os faça mais bem ao destruí-los do que pertencerem a alguém que os guarda de forma indiferente.
Charlie hoje se foi. Não sentirei sua falta pois sei que fará alguém feliz. Não sentirei sua falta porque uma criança o abraçou junto ao peito e sorriu. Não sentirei sua falta porque o tenho em meu coração, porque me lembro perfeitamente do dia que o ganhei, como surpresa, de minha esposa, em um dos gestos mais belos e ternos que alguém já teve por mim. Pode chamar de clichê, mas quando ganhei de Graziela o Charlie de crochê, fui pleno, muito mais que se ganhasse um carro ou coisa do tipo. E hoje, quando pela segunda vez Graziela a alguém o presenteou, me sinto tão feliz quando a mim ele foi dado.
Gestos simples para uma vida simples e feliz. Não precisamos mais do que isso, ao menos eu não preciso. A vida é bela quando belas são as nossas atitudes e a de Graziela hoje foi linda!
É isso.
Ouvindo: Chris Rice

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