Coringa, Ainda Há Algo a Dizer (Alguns Spoilers, mas Foda-se)
Arthur Fleck, o Coringa, dançando no banheiro é algo tão impactante, tão inusual do que se espera do Coringa que só posso chegar a conclusão que a transmutação gradual de Fleck para Coringa é tão delicada quanto perturbadora. E perturbadora por ser delicada. Quando Fleck mata aqueles babacas no metrô, ele ainda é Arthur Fleck ao meu ver. É uma pessoa com problemas mentais severos ainda que sutis a uma primeira vista, a pessoa que luta por aceitação, para ser reconhecido, para ser ao menos respeitado.
No momento em que assassina três homens ele se liberta. Se liberta de Fleck, aquele homenzinho medroso e sem iniciativa, aquele vermezinho detestável que todos acham que podem espancar impiedosamente, tirar sarro, ofender, humilhar de forma cruel e vil. Quando ele adentra aquele banheiro e dança, ele faz talvez de forma ainda inconsciente a dança da libertação. Ele manda Fleck, esse zé ninguém as favas e se transforma em Coringa.
Se é para ser louco, que seja em sua plenitude e é isso que ele faz dali em diante. Coringa assume do ponto em que Fleck deixa de existir e não leva mais desaforos para casa. Alias, em sua própria casa assassina a sangue frio o dono da arma com o qual tinha cometido seus primeiros homicídios. A cena tem som, fúria e uma beleza indizível, impossível de descrever. Aquele sangue jorrando, aquela cabeça se espatifando contra a parede naquele apertamento fétido e nojento para dizer o mínimo, aquele anão patético suplicando por sua vida, tudo isso compõe um painel tão tenso quanto impactante e em minha talvez distorcida visão, belíssimo!
Joaquin Phoenix a força motriz por trás de Coringa faz da cena um balé tão coreografado quanto espontâneo, que, se revira o estomago por um lado por outro traz uma hipnose visual que o torna impossível de não ser visto. Esqueça Ana Pavlova e "A Morte do Cisne" balé bonito mesmo é o do Coringa trucidando seu antigo "amigo".
Loucura e sanidade se misturam no momento em que Arthur Fleck sucumbe a personalidade do Coringa e fica difícil chamar tanto um como outro de maluco no mundo insano em que estão inseridos. Gotham é o Asilo Arkhan a céu aberto, um esgoto de pessoas onde os ratos desviam dos humanos e não o contrário, já que nocivos ali são os homens. Os ratos, cotiados, só tentam sobreviver.
A loucura tão bem estudada de Coringa rivaliza com a do personagem de Robert De Niro, Murray Franklin. Frankin, é muito mais doidaço que o próprio Coringa, ainda que as pessoas não se deem conta disso ao ver o filme. Em um mundo transtornado e avesso em valores, Murray solta uma pérola pouco antes de morrer ao dizer que seu programa é "de família". Ora, Murray ridicularizou Arthur Fleck de forma absurda para toda Gotham e vem falar de valores familiares? Coringa fez muito bem em estourar-lhe os miolos de forma igualmente visível a todos os que estivessem sintonizados.
Não há justificação possível em Coringa para os atos de Arthur Fleck. Coringa é um louco que precisa ser internado urgentemente e jamais ser solto, mas este Coringa é muito, muito mais legal de se ver que qualquer filme sobre Batman, aquele Casmurrão vingativo do cacete!
É isso.
Comentários