Send In The Clowns (Uma Critica Sobre o Filme Coringa)



Subir os créditos do Filme "Coringa" ao som de Send In The Clowns na versão sempre superior a todas as outras de Frank Sinatra foi mais que uma cereja no topo do bolo, foi um golpe de gênio, de mestre!

Coringa é todo som e fúria embora embalado em uma melancolia cortante que dilacera sentimentos sem JAMAIS justificar a crueldade e loucura do personagem central e muito menos  tentar criar uma ponte entre a forma como o mundo o tratou (sempre com indiferença e crueldade) e o que ele se tornou. Em que pese sua doença mental, Coringa escolheu se tornar quem se tornou, isso fica claro e ai não há pena possível de ser sentida.

No passado, houve Jack Nicholson e ele capturou a essência cínica e com um que de diversão do personagem, mas este soberbo, Magistral, irretocável Coringa de Joaquin Phoenix jamais se tornaria o quase caricato Coringa de Nicholson, jogando-o muito mais para o lado de Cesar Romero, o Coringa da série televisiva. Nicholson, que é um ator espetacular, foi traído por um roteiro infeliz e por contracenar com Val Kilmer, o que é o mesmo que contracenar com minha falecida avó.

Houve também o Coringa de Heath Ledger. Ledger fez um Coringa absolutamente insano, visceral, uma representação da maldade humana e seus largos limites. Ledger ombreia com Phoenix no quesito interpretação, impossível escolher um ou outro, mas o seu personagem foi pelo caminho da maldade pura, não tinha um respiro de humanidade sequer, é como se fosse quase inumano, um ser destituído de qualquer sinal de empatia, de qualquer possibilidade de compaixão. Ledger representou o mal e o fez a perfeição.

Phoenix, construiu um Coringa que embora não possa ser absolvido de seus atos tão cruéis e insanos, é o mais humano de todos. Quando ele dança, percebe-se por trás daqueles desajeitados passos, humanidade, ainda que distorcida pelos seus problemas mentais tão aparentes e ainda sim tão ignorados por todos. Quando ele pede por seu emprego perdido, quando ele tenta ser alguém genuinamente engraçando, quando vai para uma ala pediátrica de um hospital tentar fazer crianças doentes sorrirem, em todos estes momentos, é possível perceber traços de alguém que busca aprovação e respeito de seus pares humanos. Aprovação essa sempre negada de forma peremptória por todos.



Esqueça Batman e sua eterna e modorrenta questão existencial. Bruce é uma criança quando  este Coringa se  desenrola. Ao menos no primeiro terço do filme, Coringa é alguém tentando se ajustar, ser aceito, querido e embora nada disso aconteça, ele não desiste de tentar. Quando enfim ele percebe que jamais será amado, sua raiva surda do mundo vai tomando forma e ele se percebe. Torna-se um transgressor em tempo integral e mesmo quando assassina a sangue frio um ex companheiro de trabalho e poupa outro, percebe-se que ainda tenta se agarrar a algum senso de justiça que logo abandona por completo.

Do último terço em diante, matar par ao Coringa se torna algo simples e absolutamente isento de remorso. Ele se diverte com o mal e  percebe-se que para ele se não há possibilidade de receber o respeito dos outros, que receba o medo dessas pessoas, que elas o reverenciem pelo temor para ele tanto faz, desde que reverência haja.

Joaquin Phoenix é a energia por trás do filme. é o dínamo propulsor de todas as emoções que o filme desperta. Sem ele, Coringa seria um fracasso. Seu corpo magro enche a tela de forma assustadora e nem um gigante da estatura de Robert De Niro consegue nas cenas em que dividem eclipsa-lo. O filme existe por conta de Joaquin Phoenix, ele é a vida que o sustenta e se justiça houver ganhará todos os prêmios de melhor ator em que for indicado.

Violência, muita violência, som, fúria, loucura, muita loucura. Coringa é de longe o melhor filme lançado este ano e vale a vista.

É isso.

Ouvindo: Frank Sinatra

Comentários

Postagens mais visitadas