O Caixão da Minha Mãe



Tenho tido conversas duras e tensas com a minha mãe. Não duras no sentido de serem ásperas, ignorantes ou coisa do tipo, mas duras no seu conteúdo, tensas porquê mexem com o meu emocional de forma muito forte, de uma forma que eu não estava esperando e portanto não estava preparado, conversas tristes. É como se eu estivesse escrevendo uma letra para uma música do Esteban Tavares.

Esta semana minha mãe versou comigo sobre o seu caixão. Me perguntou se eu a ajudaria a paga-lo. Eu tenho me descobrido filho pela primeira vez na vida. Eu me entendo como Pai. No dia que Rafaela nasceu, eu sabia que era Pai de forma irreversível e acontecesse o que acontecesse, ser Pai seria minha missão.

Eu não sei ser filho. Simplesmente não sei. Eu tenho de só saber ser corretor de imóveis e mais nada. Acho que limitei minha vida a uma existência muito pobre no momento em que me vi nesta profissão. Quando minha mãe pergunta sobre seu caixão, eu penso no custo, apenas no custo. Só hoje, quase uma semana depois, percebi que o custo é irrelevante porque estávamos falando da morte da pessoa que me gerou. E estranhamente serena, minha mãe estava sendo prática, de forma alguma se vitimizando.

A verdade é que estou perdido em meus sentimentos e afazeres. Eu queria sentar e chorar, mas minhas malditas lágrimas secaram e isso me deixa com ainda mais raiva. Eu sinto fermentar dentro de mim uma tristeza que vai me tomando e sufocando e me paralisando. Talvez a morte de minha mãe seja algo natural dado o tempo que ela viveu, a forma com que ela viveu e tudo o mais, porém, eu olho e espero que o sobrenatural se manifeste na vida dela e ela permaneça mais um tempo sem ter que conversar comigo sobre seu caixão.

A vida esta confusa para mim. Me sinto sobrecarregado, me sinto como Benjamim, o personagem de Selton Mello que não sabe se quer ser, ou melhor, continuar sendo, um Palhaço. Meu buraco é um pouco mais embaixo, pois não sei se quero continuar a ser eu mesmo. De certa forma, percebo que desgostei de mim e de quem me tornei e isso é angustiante.

Me deparar com a tarefa de comprar um caixão para minha mãe é algo que me tira do eixo. Eu simplesmente não sei o que fazer, como pensar. É caro? Onde se compra? Da pra encomendar por telefone ou tenho que ir até Naviraí, a cidade dela, para comprar? Eu não quero uma viagem extenuante apenas para comprar um caixão, mas porn outro lado já me espremi em um ônibus fétido e lotado de maconheiros para ver o Santos jogar em Porto Alegre. A s contradições da vida me exaurem, as minhas contradições me exterminam.

Eu sei que daqui a pouco chegaram clientes no plantão e eu  terei que simplesmente esquecer minhas próprias questões e me mobilizar para vender, vender, vender. Eu só queria dormir, dormi, dormir.

É isso.

Ouvindo: Marcelo Jeneci

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