Pessoas Andando Na Esteira
Eu vejo pessoas andando na esteira. Seja em nas redes (anti)sociais, seja nas academias, pois passo por várias nos meus trajetos diários. Elas parecem felizes e determinadas. Focadas em alcançar um objetivo. Eu não sei bem qual é, mas imagino que seja emagrecer, manter a forma como se diz. Eu vejo as pessoas e além de felizes elas parecem cansadas, estão suando, com um squeeze sempre ao lado, tomando água ou energético, sei lá, elas estão focadas em não sei bem o que.
Por meu turno eu não ando de esteira. Já tentei, mas não consigo.Eu me canso logo, sou preguiçoso pra ser sincero. Eu nem jogo mais futebol, embora eu até arriscasse um chutes se fosse convidado. Mas como não sou, nem jogo, nem ando de esteira. Mas as pessoas ali na esteira despertam a minha curiosidade para ser sincero. É prazer ou delicia estar ali correndo ou caminhando em passos largos?
Seja um storie de rede social, seja uma academia com paredes de vidro todos parecem exatamente iguais, existe claramente um objetivo obscuro a ser atingido ali. Ser mais magro? Pernas mais grossas e duras? Resistência cardíaca maior? Sei lá, só sei que elas estão ali andando e eu aqui olhando. Olhando e ficando cansado só de olhar. Porque eu gosto de ouvir música e ler e só isso. Se eu pudesse passava o dia fazendo as duas coisas. Não posso e dai fico entre uma venda e outra pensando em quem anda de esteira.
Quem anda de esteira parece muito com quem faz mergulho em alto mar. Já viu as fotos de quem mergulha em alto mar? Tem alguém chorando nelas? Todos são felizes nesses momentos. Acho até que andar de esteira é uma preparação para mergulho em alto mar que por sua vez pode preparar para voos mais altos como pular de paraquedas ou voar de asa delta. Desde que tudo seja bem documentado, mostrado em todas as redes, o céu é o limite.
O céu é o limite até Elon Musk, o chefão do Space X conseguir quebrar essa barreira e nos jogar para fora de nossa atmosfera, fazendo-nos divisar as estrelas, os planetas, os exoplanetas, tudo enfim que tem lá para cima. Mas acho que eu não conseguiria entrar em uma aeronave do Space X porque tenho certeza que é necessário entre outras atividades de preparação, andar de esteira. Talvez a esteira me limite de ir além do céu azul e eu tenha que ficar recebendo aquela chuva ácida e desprezível retratada em Blade Runner quando a Space X levar todos os que tem dinheiro e fazem esteira para outros planetas, ou para habitações tipo aquelas retratadas em Elysium.
Não ter coragem nem vontade de ser como as pessoas que andam de esteira vai me limitar demais no futuro, eu sei disso. Minha resposta cardíaca vai se deteriorar com o tempo mas isso não é nada parecido com o fato de que eu jamais postarei stories feliz por ter corrido tantos kms na esteira. Jamais poderei me vangloriar de ter usado a esteira no modo subida (me parece que algumas viram rampas) nem jamais poderei dizer que corri a tantos kms por hora. Sou um fracasso e tudo isso porque não gosto de esteira.
Pessoas que andam de esteira assim como pessoas que fazem mergulho em alto mar são mais felizes. As fotos não mentem, os stories não mentem os filtros para ambos não mentem e os filtros além de não mentirem, ajudam a corroborar o fato dando tintas mais realistas aos fatos retratados. Como um filtro pode potencializar a realidade? Tem que perguntar para o pessoal do Instagram, mas ao que parece é possível e até desejável que ao usar filtros nas fotos ou vídeos eles sirvam exatamente para ampliar a realidade por mais que a realidade seja apenas isso: A realidade.
Falei tanto de esteira... A grande verdade é que estamos todos aos poucos entrando em uma grande esteira que nos nivela e nos faz agir da mesma forma e que também nos separa por grupos rotulados e parecemos ao menos para mim caminhar em esteiras paralelas umas das outras onde os indivíduos divididos em grupos de interesse não entendem que cada grupo pode ser como quiser e se insultam mutuamente por pensarem diferente.
Cada vez mais a pluralidade inexiste e somos forçados a buscas esses grupos de interesse para nos sentirmos pertencentes a uma sociedade. Não podemos pensar diferentes e estarmos fora dessas imensas esteiras que nos limitam. Temos a obrigação de pensarmos da mesma forma e nosso pensamento claramente é melhor que o do colega que pensa diferente. Alias, quem é ele para pensar diferente de mim?
Acontece que eu tenho um sério problema. Não quero estar ligado a nenhuma esteira. Quero só sentar e ler meus livros e ouvir minhas músicas e daqui debaixo, embaixo de uma chuva ácida e desprezível, ao lado de Rick Deckhard ficar tentando descobrir quem é replicante e quem é humano e talvez Roy Batty possa nos ajudar. Eu não quero andar de esteira, me recuso. Não sou talhado para stories de redes sociais, não os desse tipo. Alias, não sou talhado para nada que pareça minimamente com uma atividade sociável. Eu sou um replicante e Deckhard vai acabar descobrindo isso mais cedo ou mais tarde.
É isso.
Ouvindo: Tiago Iorc
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