Minha Mãe e Sua Luta
Eu não quero morrer. Um dos motivos de minha identificação com a doutrina Adventista é que ela prega a volta eminente do Filho do Eterno. Não achamos que vamos ter prosperidade, riquezas e mais riquezas por gerações e gerações. Para nós, ou para os Adventistas melhor dizendo, a volta de Jesus é algo que acontecerá em breve, muito breve. Eles cantam sobre isso, pregam sobre isso, falam sobre isso o tempo todo.
Eu não quero morrer e de verdade creio firmemente que farei parte da geração que verá com seus próprios olhos a volta de Jesus. To ferrado, mas creio que verei. Morrer não esta nos meus planos.
Aparentemente também não está nos planos da minha mãe. Ela esta lá, lutando. Acabei de falar com minha tia e ela teve uma piora considerável no quadro geral. Mas ela luta incansavelmente. Chega a ser impressionante o seu apego a vida. Acho bonito, mas sabendo de seu sofrimento, me sinto triste, muito triste. Não sei se teria essa força que ela demonstra. Na verdade, acho que não teria mesmo, morreria e pronto.
Mas dona Alexandrina sempre foi assim. Lutadora, corajosa, sem tempo ruim para ela. Se algo dava errado, ela derramava suas lágrimas, se recompunha e tentava de novo. Sempre foi assim, sem tempo para chorar os fracassos e para ser sincero, mesmo seus sucessos ela não comemorava muito. Puxei isso a ela na verdade. Não sei comemorar meus feitos de maneira apropriada e depois de 10 minutos nem os acho tão impressionantes assim.
Lembro de uma vez ter tido acesso ao seu diário pessoal. Fiquei chocado com os escritos mas mais chocado porque do alto dos meus 8, 9 anos não tinha entendido ainda que as pessoas poderiam extravasar suas emoções escrevendo. Achei tocante, bonito e claro, algumas passagens de puro nonsense. Ali decidi que teria eu também diários e eles me acompanham desde então. Outra contribuição de dona Alexandrina em minha vida.
Saber que minha mãe apesar de toda a sua luta vai morrer me deixa triste, arrasado. Mas é isso que vai acontecer. Mas seu exemplo de luta vai ecoar em mim sempre. Que o Sol continue nascendo depois que ela se for. Que crianças nasçam, que outras pessoas morram, que a chuva continue a regar as plantas. A vida vai continuar para mim, minhas irmãs morreram, minha mãe se vai em breve, meu pai, não faço ideia. A vida vai continuar sem minha mãe, mas ela esta lutando, bravamente, com todas as suas forças, para que essa realidade seja alongada pelo maior tempo possível.
Viver é legal, mas as vezes é uma merda!
É isso.
Ouvindo: Os Arrais
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