A Esperança de Revê-la (Essa Era Minha Mãe)



Um dia antes de minha mãe morrer, falamos por chamada de vídeo. Eu sabia ali que sua hora havia chegado. Foi uma conversa breve e entre outras coisas, pedi que minha mãe se reconciliasse com Deus. Para mim isso era o mais importante naquele momento e poucas horas depois, recebi a noticia que ela havia partido.

Sempre achei que minha mãe havia gostado mais de minha irmã Fernanda do que de mim e de minha outra irmã, Amélia. Posso estar enganado, mas acho que não e de verdade, hoje esta questão que sempre me torturou não me importa mais. Ambas morreram e estão no descanso que a morte proporciona enquanto aguardam o retorno do Eterno.

O fato é que tenho muita esperança de rever minha mãe quando deste retorno.  Temos coisas a conversar que ficaram realmente pendentes e que gostaria de sentar com ela e conversar, esclarecer, dar risada sobre percepções erradas que eu possa ter tido. Não caberá qualquer julgamento ou ressentimento, mas esclarecer de forma serena alguns pontos.

Também e sobretudo, quero revê-la porque existem coisas que eu preciso dizer a ela. Falar por exemplo que hoje entendo atitudes que por muito tempo não entendia e tomava como pouco amistosas de sua sua parte e hoje vejo que tinham o objetivo de proteger-me, cuidar-me e todas as outras coisas boas que as mães fazem pelos filhos.

Quero poder dizer a ela como ela foi decisiva na formação dos meus gostos, minha personalidade, minha visão de mundo. Minha visão do mundo advém praticamente toda de minha mãe. Lembro-me dela tendo discussões acaloradas com outros adultos defendendo o direto de as pessoas serem como elas são sem julgamentos, sem  receberem palavras de reprovação, sem serem humilhadas por serem como eram. Muitas vezes ela se exaltava e sua voz se fazia ouvir, outras, ela se calava e seu protesto era o silêncio.

Lembro de uma vez em que ela de plantão em um hospital e eu com muita vontade de vê-la fingi estar doente para ser levado exatamente para este hospital. Ela ao me ver na hora entendeu e percebendo a impaciência dos adultos que me levaram a contragosto ao hospital preparou algo que eu pensava ser um remédio. Do alto dos meus 8 anos fiquei apavorado por ter que tomar um remédio que não precisava e ela me disse: - Filho, isso é um placebo, confie em mim e tome. Essa era a minha mãe. Tomei na confiança e quando ela chegou em casa foi a minha cama e me explicou o que era um placebo da forma mais correta possível. Ela queria que eu fosse alguém. Não um homem rico, mas alguém e achava que a educação era vital para isso. Essa era a minha mãe.

Quando eu tinha 5 anos e estava internado, desta vez sim, doente, muito doente inclusive, me levaram revistas em quadrinhos para o hospital. Eu não sabia ler e esperei ansiosamente a visita de minha mãe. Como era enfermeira, podia ficar mais tempo comigo. Creiam, em 4 visitas de minha mãe, ela me alfabetizou. Me fez ler e escrever. Cheguei a escola no ano seguinte achando tudo um saco indizível, já que as outras crianças ficaram uns dois meses, eu acho, fazendo círculos e bolinhas e depois desenhando letras enquanto eu já lia e escrevia. Essa era a minha mãe.

Outra vez, uma vizinha me levou ao centro de Guarulhos onde morávamos para fazer sei lá o que e a tresloucada passando pelo velório da cidade viu que havia um velório em curso. Ela nem conhecia o morto, mas não só entrou como me levantou para ver a cara da mulher morta no caixão. Fiquei aterrorizado, aquela imagem me perseguiu dias e dias a fio e como mãe ela percebeu algo errado. Me pressionou e contei o acontecido ao mesmo tempo que fazia xixi no shorts e escorria pelas pernas. Minha mãe calmamente abriu a Bíblia e leu diversos versículos que deixavam claro que os mortos nada podem fazer contra nós. Essa era a minha mãe.

Tenho a esperança de revê-la porque preciso abraça-la, mas também e principalmente porque quero conversar horas a fio com ela. Minha mãe me ensinou a gostar de musica boa. Ela adorava música e fazia com que eu ouvisse seus cantores e cantoras favoritos. Ela só gostava de música de qualidade, nada de porcarias e minha mãe me moldou musicalmente e de modo mais amplo também culturalmente, pois discutia comigo sobre livros que eu tinha lido trocando altas idéias com um pirralho de 10, 11 anos. Essa era a minha mãe.

Eu quero revê-la, preciso revê-la e por mais que eu esteja levando minha vida, a sua ausência é como uma faca em meu rim me fazendo andar com dificuldade. Mãe, amo você!

É isso.

Ouvindo: Whitney Houston a quem minha mãe amava de paixão ouvir.

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