Hoje Foi Dia de Enterrar a Minha Mãe. (Nossas Mãos Ainda Encaixam Certo)



Minha mãe, lavou muito banheiro desses "Boy Cuzão" como diria Emicida para me criar. Mesmo sendo Enfermeira tinha se virar e ossos do ofício, era Faxineira quando precisava e porra! Como me orgulho disso. Herdei dela essa resiliência, esse negócio de fazer o que tem que ser feito e pronto sem pensar muito no assunto. Minha mãe era assim, eu sou assim. Nossas mãos ainda encaixam certo como também disse Emicida.

Pra ficar na mesma canção eu tenho em tudo, mas tudo mesmo ouvido a voz da minha mãe. Como pode né? Preciso enterrar minha mãe de vez, afinal ela morreu dia 30 de Janeiro, quinze dias depois de ter feito aniversário, seu último aniversário. Caramba, ela morreu, mas fica me rondando aqui, não seu espírito, mas em tudo eu vejo seus pensamentos, sua forma de ver a vida, de encarar a caminhada, em tudo eu vejo a voz da minha mãe.

Escrever me alivia, já que não converso com ninguém sobre isso, mas hoje eu preciso enterrar minha mãe e seguir em frente. Aqui, no plantão de vendas, meu refúgio, onde eu sou mais eu, de frente pra este notebook, e de olho no salão de vendas, eu fico com os pensamentos dela. Tão contraditória quanto eu ela estaria dizendo que eu deveria resta na igreja, no JA. Certamente ela estaria dizendo isso. Com seu copo de cerveja na mão, é claro. Ela era assim.

Nossas mãos ainda encaixam certo. Encaixam porque sou a cópia emocional de minha mãe assim como Rafaela minha filha é a minha mas preciso seguir em frente, lidar com a morte de minha mãe de uma forma que não me angustie tanto quanto esta angustiando. Fingir tranquilidade em meio a uma tempestade emocional é uma situação extenuante, mas a vida não te da opções de parada por conta da morte de pessoas que você ama. As pessoas te darão condolências e pronto, acabou.

Tenho visto filmes que sei que ela gostaria, ouvido músicas que aprendi a gostar com ela (minha mãe tinha um gosto musical do caralho de bom!) A vida nos levou para caminhos tão distantes, tão fora de esquadro que parecíamos dois estranhos por muito tempo, mas sua doença nos uniu. E não nos uniu daquela forma piegas que costuma ser neste casos.

O câncer de minha mãe a desnudou para mim. Vi sua fragilidade em contraponto a sua força e vontade incessante de viver. Vi uma mulher que se errou também acertou muito, muito mais que seus erros. Vieram a mim lembranças de uma infância esquecida ou bloqueada, sei lá, em que minha mãe aparece sempre como protagonista do bem em relação a mim, sempre confortando minha alma perturbada já na infância, sempre buscando o melhor, se esforçando, se matando mesmo para tudo estar bem. Minha mãe foi uma heroína.

Mas hoje eu a enterro para continuar a viver. Preciso seguir mantendo-a como uma lembrança boa, bonita, uma parte significativa da minha vida, não como o farol que esta me cegando ultimamente com uma luz muito forte porém desnecessária. Se fosse para pensar em como minha mãe me aconselharia a cada atitude que todo, o que ela faria no meu lugar ou coisas do gênero, que fosse quando ela estava viva e poderia responder. Agora já não faz a menor diferença.

Sim, nossas mãos ainda encaixam certo, mas hoje eu finalmente consegui enterrar dona Alexandrina de meus pensamentos, coloquei-a na caixinha das memórias boas, das lembranças ternas e sigo minha vida de pai, marido e cidadão. Minha mãe morreu e espera o regresso do Eterno. Que tenha morrido pronta para com ele subir é o meu maior anelo.

É isso.

Ouvindo: Emicida


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