Dr Drauzio, Suzy e a Humanidade Se Esvaindo
Quando era jovem, anda muito de Metrô. Demais mesmo. Quando pegava o ramal Norte/Sul, linha azul, muitas vezes acabei trombando com um senhor alto, muito magro, olhar sério, quase sempre de pé ainda que houvesse lugar disponível. Era o Dr Drauzio Varella. Dr Drauzio é uma espécie de anti herói quando falamos de atributos físicos, mas um herói do mais alto quilate quando falamos dos atributos morais e intelectuais que deveriam ser tão caros a um herói independente da época que ele vive.
Sou um leitor ávido e li todos os seus escritos. Bem humorados sem serem uma comédia, comoventes na medida certa, sem nunca ser piegas, Drauzio tem uma escrita simples e bem por este motivo, refinada. Além de tudo isso é um dos maiores Oncologistas deste nosso país, embora tenha ultrapassado a fronteira de sua especialidade e tenha traduzido conceitos maio que herméticos quando falamos em medicina para o linguajar popular. Drauzio é enfim, uma personalidade incrível. Uma personalidade, não um personagem e muito menos uma celebridade.
Suzy, a quem Drauzio entrevistou dias atrás no Fantástico, onde costuma fazer suas aparições, é uma, (um, nunca sei ao certo e digo isso sem ironia, não sei mesmo) transsexual que esta presa dentro de um sistema prisional absolutamente obsoleto e sem consonância com a realidade que vivemos em um presídio para homens. Drauzio é um cientista, lembremos disso, jamais um juiz. Ainda que tenha a têmpera para tanto que a vida lhe deu, ele se abstém de julgamentos pois passou anos a fio ouvindo os mais inacreditáveis casos nos presídios por onde andou sempre de forma voluntária, sempre pensando no próximo, mas não no próximo abastado, mas naquele próximo que esta bem longe e queremos, vamos ser sinceros, que continue assim.
Drauzio entrevistou Suzy e em determinado momento deu-lhe um abraço. Pronto! Bastou para a pouca humanidade que resta nas redes (anti) sociais começar a se esvair como uma hemorragia incontrolável. Como assim, abraçar um, (uma?) presidiário que acusado de roubo e posteriormente ao que parece descobriu-se ser autor de um bárbaro crime em que estuprou e matou uma criança de 09 anos.
De novo, Dr Drauzio é médico, cientista, não juiz! Devia ele perguntar aos seus pacientes que atende no Sírio ou em outros hospitais de ponta em São Paulo se acaso cometeram eles algum crime que invalide seu atendimento humanizado? Devemos achar que ele só abraça presidiários? E se for, o que tem? Não são eles os mais carentes de abraços? Suzy não recebia visitas a 8 anos. Ok, o que fez foi deplorável, mas não pode ter arrependimento em suas veias? Não pode ser reintegrado a sociedade após cumprir sua pena? Será eternamente julgado e condenado pelos seus delitos? Mesmo pagando por eles e pior após terminar de paga-los?
Quem somos nós além de pessoas tolas que queremos ser melhores do que realmente somos porque não fomos pegos em nossos pecados ocultos? Levamos mesmo uma vida tão melhor que a de Suzy que nos coloque na posição de julgadores de um simples abraço e pior condenadores de tal atitude? A humanidade esta a se esvair por entre nossos poros, esta é a triste realidade.
Somos cínicos achando que somos os melhores do mundo, imaculados e imerecedores de punição porque nossos delitos e acreditem, todos nós cometemos delitos, não vem a públicos. Talvez a maior virtude do Dr Drauzio seja a de saber que ele mesmo deve cometer dúzias de delitos o tempo todo e não importa a dimensão deles, o que importa é que são cometidos e por este motivo não julgue ninguém.
Dr Drauzio é um exemplo de humanidade em uma sociedade cada vez mais desprovida dela. Que continue assim, sendo farol, sendo luz! Para que o pouco de humanidade que nos resta, resista por seus exemplos.
É isso.
Ouvindo: Daniela Araújo
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