Desalento



Agora são os gafanhotos. Mas tem o vírus, tem um pais vivendo um (des)governo nunca antes visto, tem um recrudescimento do egoísmo, da falta de amor, a empatia sendo cada vez menos sentida. Tem também uma forma estranha de se relacionar, onde o simples gesto de ligar para alguém ao invés de mandar uma mensagem por aplicativo se tornou um ato quase ofensivo. Fala-se muito em distanciamento social, mas na prática já estamos a muito, muito tempo distanciados, separados por inúmeras barreiras que criamos em busca de ocultar um vazio que hoje não é de forma alguma apenas individual, mas tão contagioso quanto o vírus que nos mata, apenas que ele, o vazio, pode levar a vida toda para nos matar e é totalmente assintomático.

Eu vivo um desalento ao perceber que valores estão se esvaindo  trocados e mesmo os mais fundamentais deles tornam-se quimeras que escondidos nas brumas do relativismo perdem a relevância sem que sequer notemos a sua paulatina substituição por outros construídos ao sabor de tendências sem o menor respaldo moral despidos de caráter e recheados de opiniões tão voláteis que mudam ao sabor das conveniências com a mesma rapidez em que a sociedade perde suas referências.

Estamos a mercê de governantes cada vez mais sem compromisso com o bem estar de seus governados, com empresas focadas apenas em aumentar seu lucro trimestral gerando bônus gigantescos a seus administradores e dividendos cada vez maiores a seus acionistas enquanto seus funcionários tem planos de saúde risíveis (quando os tem) e salários sempre aquém de suas funções e sobretudo consequências.

O mundo olha para Marte e planeja colonizá-lo não porque isso seria bom para humanidade como um todo ou porque a ciência se beneficiaria com o conhecimento adquirido, mas porque pode ser uma válvula de escape para os mais abastados quando finalmente este frágil planeta azul que vivemos se exaurir por completo em seus recursos naturais e não servir mais para que um estado Americano como a Califórnia possa ter um padrão de vida tão espetacular que se replicado ao restante dos habitantes de todas as outras partes do mundo levaria este mundo ao caos em menos de um ano por total falta de recursos para que tal situação fosse mantida.

Meu desalento me faz ter um olhar ora cínico, ora incrédulo. Hoje a empresa em que trabalho terá um meeting digital para comunicar a clientes e mercado o lançamento de mais uma imponente torre na cidade de Osasco. Me sinto privilegiado de poder fazer parte disso, orgulhoso mesmo, mas enquanto me dirigia ao trabalho, contei mais de 30 pessoas em situação de total indigência pelo caminho, sem um teto, sem comida, sem acesso a saúde, sem nada, enfim e me perguntei o que estava fazendo para que uma situação como essa pudesse mudar. Nada! Não estou fazendo fazendo nada e isso me traz além de  um desalento para com o mundo, um ainda maior para comigo mesmo pois o conformismo diante de um mundo que se esvai esta claramente instalado em mim.

Eu vivo um desalento e quando penso no mundo que minhas filhas herdarão não consigo encontrar uma saída e por mais que eu não queira me esquivar de minha responsabilidade pessoal, tenho a firme crença que apenas um esforço coletivo pode amenizar uma situação de tamanho caos. Perdemos valores, referências, objetivos. O mundo está no automático e sinceramente não sei onde ele vai parar. Hoje eu vivo a desesperança mas por trás dela, ainda tenho um sopro de humanidade que me diz que somos melhores do que tudo isso que esta acontecendo e em algum momento vamos nos reunir e virar este jogo a nosso favor.

É isso.

Ouvindo: Os Arrais

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